Futebol de meia-tigela

  Pode ser o calor, talvez seja o Carnaval, que chega, seria, quem sabe, a quebradeira dos clubes, mas que o futebol anda sem brilho, anda mesmo. Salvou-o, do que vi, no domingo, um gol antológico do atacante Luis Fabiano, do São Paulo, e a exibição do jovem Carlos Alberto, na sova que o Fluminense deu no Botafogo. Nada mais.
  Romário saiu na manchete dos jornais cariocas, exaltado como o herói do jogo. Só pode ser a aura que há tantos anos reveste a carreira do craque. Romário fez um gol de pênalti, o que não chega a ser proeza, fez um gol de pura sorte e mais um, esse de mérito relativo, tão perfeito foi o passe que o acionou na pequena área.
  A eleger alguém de realce na goleada tricolor, eu elegeria Carlos Alberto, arquiteto singular de quatro dos cinco gols da arrasadora vitória contra o Botafogo. Por sinal, minha gente, que time é esse que Levir Culpi anda escalando? Em três partidas, levou 11 gols e se mais não levou foi porque Deus achou por bem poupar o bom Bebeto de amargura maior.
  Sabemos que o elenco do Botafogo, todo ele, é de parcos coadjuvantes. Não há um único craque. Unzinho. A pindaíba do Botafogo é notória. O dinheiro mal dá pra ter o que tem. Mas, que diabo. Quem não tem talento, que tenha, ao menos, brio. O time do Botafogo é de uma passividade alarmante. São cinco jogadores à frente da zaga e ninguém marca ninguém. Tanta perna junta pra se arrastar pelo campo!
  O jogador-símbolo de tamanha inapetência seria o lateral Misso, a quem eu tomaria o próprio nome pra dizer que o time do Botafogo é simplesmente o ...Misso, com perdão do jogo de palavras.
O milagre da água benta
  Assim, tem sido o Campeonato Carioca: um tremendo muro baixo. O Paulista, por sua vez, não chega a empolgar. O regulamento é uma versão esportiva do samba do crioulo doido. E se alguém pensa que é incompetência da Federação, pode mudar de idéia. O regulamento é feito, propositalmente, pra contemplar o peso político dos clubes do interior.
  Vi um pouco de cada jogo paulista, domingo. No Pacaembu, o Corinthians ganhou sem tomar um susto sequer. O União São João não pesou na balança. Vi o São Paulo dividir o escore com o Santo André, num jogo cujo segundo tempo não passou de uma tediosa patuscada. Como o empate servisse à classificação de ambos, os dois baixaram a bola e jogaram a conta marota do regulamento. Um expediente mais que manjado na história do futebol. O jogo virou passatempo de compadres. Pior pro Santos cuja sorte dependia do jogo.
  Do jogo, como já disse, ficou o belo gol de Luis Fabiano, típica meia-bicicleta. Plasticamente, um primor de elasticidade e de harmonia: o corpo lançado ao espaço, pra interceptar a bola, mudando-lhe a trajetória, com o peito certeiro do pé. Um gol de exportação.
  Pra não ficar só no momento de um gol excepcional, encerro o papo com a declaração do treinador Luis Carlos Ferreira, do Santo André. O repórter André Kfouri, da ESPN, quis saber qual teria sido o segredo do time. Depois de levar 2 a 0, no primeiro tempo, o Santo André voltou do intervalo com outro espírito, a ponto de fazer dois gols e empatar o jogo. Vai ver, foi uma profunda mexida tática. O treinador Luis Carlos Ferreira, mais prosaico, que ninguém, sapeca: ‘‘Sabe o que foi que eu fiz? Dei um copo d’água pra cada um dos jogadores e nada mais.’’
  Água benta, certamente.
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