TOQUE DE PRIMEIRA
Uma bola, uma criança
e a imperfeição da arte
Olá, amigos do Esporte! A criança, com seus passos bêbados de alegria, corre atrás de uma bola. Mais que tê-la nas mãos, aqui no Brasil ela busca a difícil tarefa de dominá-la com os pés. Os chutes vão aos poucos dominando os sentidos, a direção. No início, todo e qualquer quicar da bola é motivo de surpresa, como se o objeto tivesse vida própria e não fosse apenas resultado de equações de física. O movimento de uma bola é pura matemática. Em contato com uma criança, ou com um bom jogador, é transformado em mágica.
Por tudo isso, vamos nos acostumando, desde criança, a correr atrás de uma bola. A domar seus instintos selvagens para fazê-la ficar ao nosso lado, dócil, domesticada. Por outras vezes, gostamos de chutá-la forte, com vontade, para empurrá-la o mais longe possível, mas sempre em uma mesma direção: o gol.
Em um passado recente, ela era exclusivo objeto do desejo masculino. Agora, as mulheres também compartilham esse desejo, embora ainda em número menor. Cada vez mais as meninas também correm atrás de uma bola e tentam conquistá-la. Chegará o dia em que os maridos reclamarão de suas mulheres porque elas estão vendo muito futebol na TV? Ou saindo para jogar peladas (ôpa!)?
A bola é diversão, é prazer, é criança, é arte.
Me pergunto se os profissionais, aqueles que têm a obrigação de estar em contato com a bola todos os dias, continuam tendo o mesmo prazer. Uma vez perguntei isso a um craque não dou o nome porque não me foi autorizado na época e ele se confessou ''entediado'' da rotina, da concentração, dos treinos, das viagens e até daquilo que as partidas tinham de solenes, com a presença dos juízes, bandeiras e até da torcida. Como ele era do interior, disse que precisava de férias, de estar com os amigos e, é claro, jogar peladas no sítio, seguido de um bom churrasco. Ele não estava cansado da bola, mas das suas formalidades profissionais. Estava com saudades do contato informal que mantinha com ela nos campos da infância e adolescência.
Por outro lado, um dos sentimentos mais constantes de um jogador de futebol que se aposenta é a do vazio interior que fica pela falta do contato com o público durante os jogos oficiais. A rotina é estressante em qualquer profissão, mas a falta dela também pode provocar estresse, principalmente quando abandonada repentinamente. Daí a razão que tantos jogadores adiam a hora de parar para além do que deveriam e acabam fazendo fiasco. Lembro de uma crônica de Décio de Almeida Prado falando de, se não me engano, Zizinho, que no final da carreira passou pelo São Paulo. Décio, que assistia a partida, conta que viu o jogador cair e quando ele se levantou o fez como um senhor e não mais como um atleta.
Por outro lado, quem foi rei nunca perde a majestade. Quem já teve o prazer de jogar com craques aposentados viu como eles ainda batem na bola com um jeito diferente, próprio e ao mesmo tempo exato e imperfeito. A arte não é perfeita, nunca foi. A perfeição é inimiga da criatividade. E não há nada mais criativo que uma criança, que ainda pouco aprendeu e portanto está longe de ser perfeita, completa. Uma criança, com seus passos bêbados de alegria, quando corre atrás de uma bola é a perfeição incompleta.





