TOQUE DE LETRA
No boteco do seo Pedro, lá no andar de cima, o papo era sempre futebol. O local, frequentado pela boleirada das antigas, rendia histórias e mais histórias, causos e mais causos da bola. Uns verdadeiros. Outros..., bom deixa pra lá.
Em uma dessas tardes qualquer, dois amigos de longa data se encontraram por lá depois de muito tempo. Copos e mais copos de água e o papo fluiu:
- Como vai meu amigo? Quanto tempo?
- Pois é, mestre. Sumiu?
- Sabe como é, né? Tenho muita gente pra vigiar daqui de cima.
- Nem me diga. Esse povo dá muito trabalho.
- Sabe que dia desses eu estava assistindo a uma partida de futebol e lembrei da nossa época. Quanta diferença!!!
- Um abismo. Essa geração atual não chega nem aos nossos pés. Muito medrosos, sem personalidade, sem conteúdo e sem capacidade.
- E mercenários. Só querem saber de ganhar um absurdo, dar uns treininhos mequetréfes e derrubar o colega.
- Isso mesmo.
- Não conseguem nem armar um time direito. Me fale um que consegue mudar o jogo por uma ordem sua, por uma substituição ou por mudança no esquema ou na posição de algum atleta. A moda é inventar, sabe. Deixar dois laterais no banco e botar um volante ou zagueiro improvisado na posição. Ou então ficar fazendo micagens na beirada do gramado.
- Pior quando botam três zagueiros e três ou quatro volantes. Ainda têm coragem de dizer que é o futebol moderno.
- Mas fala pra mim quem realmente é bom no banco.
- Posso pensar?
- Claro.
- Bom, tem aquele que gosta de um terno Armani, de falar que é manager. Sabe? O 'profexô'.
- Sim. Mas faz tempo que não ganha nada de verdade, né. Andou ganhando uns estaduaizinhos aí, mas ultimamente só tem passado vergonha.
- É mesmo. Até disse que ia se reciclar, mas não aguentou. A única coisa que mudou foi trocar o terno pela camisa polo.
- Bom, mas tem aquele lá do Sul. Esse tem currículo de invejar. Ganhou Libertadores, Copa do Mundo, trabalhou no futebol europeu.
- Sim, mas também é outro que está pulando de galho em galho faz tempo e não consegue mostrar que continua bom.
- Vive irritado, brigando com jornalista, com jogador, com árbitro.
- Tem também o outro lá do Sul, aquele da fala bonita.
- Vixi. Nem me fale. Se pudesse jogava com 11 zagueiros.
- Bom, mas o Sul tem mais um. Foi até para a seleção.
- É. Ganhou o quê mesmo? Se o Robinho era o capitão dele você vai falar pra mim que ele é do ramo?
- Tem um outro aí. Dizem que é seu discípulo.
- Esse realmente eu gosto. Ensinei muita coisa a ele. Está num patamar acima. Não que seja tão bom assim, mas gosta de trabalhar e é muito honesto, leal.
- É o que dizem.
- Eu não ganhei Copa do Mundo, mas todo mundo lembra da minha seleção. Jogava bonito, pra frente. O meu São Paulo também.
- E o meu Internacional então? Quanta saudade! E eles trocaram aquele retranqueiro do bigodinho pelo ex-rei, mas foi seis por meia dúzia. No Grêmio e no Coritiba também gritam meu nome até hoje.
- Bom, tenho que ir pra casa. Preciso olhar meus netos aqui de cima.
- Também já está na minha hora.
- Bom te ver Ênio.
- Vai com Deus, Telê.





