Não há o que Amarildo Vieira Martins, o homem-forte da Lusinha, não tenho feito no mundo do futebol. Em entrevista exclusiva à Folha, ele fala sobre o orgulho e as dificuldades de comandar um pequeno clube e de ''empregar muita gente'' sem o apoio de ninguém

Muita gente se diz apaixonada por futebol, o esporte das multidões, que pára guerras e faz o mundo se prostrar diante da TV. Mas a história do empresário Amarildo Vieira Martins, 40 anos, é um destes raros casos de abnegação comprovada.
Conhecido por episódios pitorescos e por suas declarações polêmicas, o homem-forte da Portuguesa Londrinense que insiste em fazer parte do profissionalismo desde 1997, depois de um longo período no amadorismo já viveu de tudo, fora e dentro do gramado.
E das quadras, onde começou sua carreira de árbitro no futsal, seu ponto alto no esporte.
Mesmo dirigindo um clube agonizante há mais de um ano não vence uma partida oficial ele não se deixa abalar. ''A Portuguesa vive um momento ótimo''. As palavras cegas de paixão são assim justificada: ''O mais importante é que continuamos revelando jogadores para outros clubes''.
O guerreiro é orgulhoso. ''Sirvo 300 refeições por dia. Além do profissional, temos mamadeira, pré-mirim, mirim, infantil, juvenil, júnior, feminino, master. Ajudo muita gente. Tem muito garoto bandido que aqui vira mocinho por causa do nosso trabalho''.
Segundo ele, não é só o amor insano pelo futebol que o faz um herói da resistência. Filho e marido de pastora, e genro de pastor, Amarildo é um homem de fé, que aplica a grandeza cristã. Leva pastores para palestrar sobre sexo e drogas para seus pupilos.
Além de quase arrasar o piso do gramado de tanto ceder o campo da Vila Santa Terezinha (cedido em comodato pelo município) para interessados de todos os tipos, Amarildo tem satisfação em dizer que cede o ônibus, um dos poucos patrimônios do clube, para a realização de velórios, para uso de creches, excursão de estudantes.
''A Portuguesa é a uma instituição da comunidade, sem apoio de poder público e de nenhuma entidade. Pena que ninguém reconhece isso. Apenas quem já passou por aqui. Ex-jogadores e técnicos do clube vivem ligando e mostram muito carinho. Este é o meu maior motivo de orgulho''.
O cartola garante que não se arrepende de ter idealizado um segundo time profissional na cidade, oferecido em 1997 por Otávio ''Limpa-Trilhos'' Gianelli. ''Criei a Portuguesa porque estava cheio das reclamações de jogadores que estavam no Londrina insatisfeitos com atrasos no salário, e que vinham me procurar na empresa (uma revenda de auto-peças na Rua Araguaia). Também via muita gente jogando três, quatro meses e depois ficavam desempregados. Decidi ajudá-los'', conta, ressaltando sua própria generosidade.
Para carregar a Lusinha nas costas, Amarildo conta com oito sócios (''Cada um contribui com uns R$ 500,00, à exceção de um, que ajuda mais''), com a paciência cristã da mulher (''Ela só me aguenta porque é temente a Deus'') e com a venda de jogadores segundo ele, duas dezenas desde a fundação (''Tem jogadores da Portuguesa no Campeonato Brasileiro, no México e na Europa'').
Ex-árbitro de destaque, Amarildo também gosta de lembrar que ajudou muita gente em outras carreiras, como treinadores e preparadores físicos. Além de árbitros. Seu maior feito foi ter levado Héber Roberto Lopes aos campos, depois de observar suas atuações no futebol suíço.
Diante de tantas satisfações, de tanta paixão, de tantos orgulhos, Amarildo dá uma declaração, no mínimo, contraditória. ''O futebol é um meio sujo, desonesto, cheio de mau-caráter. Vi muita coisa errada nestes 25 anos''. Tanto que não permite que seu filho Rafael sonhe em ser um jogador. Nem mesmo os sobrinhos calçam chuteiras. ''Mesmo se o cara for bom, o ambiente acaba mudando ele'', justifica o filho da elite rural, que talvez tenha ficado traumatizado com as noites que dormiu em beliche sobre chão batido quando era jogador do Pato Branco.

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