No dia 6 de junho de 1998, quando teve seu barco atingido por uma lancha, foi lançado ao mar e viu a perna direita ser amputada, Lars Grael acreditava que a carreira de velejador havia acabado. Na época, resolveu se dedicar a outras atividades, como assessor do Ministério dos Esportes, até que a paixão pelo mar o levou de volta ao esporte no qual se consagrou obtendo inúmeros títulos nacionais e internacionais, entre eles dois bronzes olímpicos (Seul, 1988 e Atlanta, em 1996).

Grael esteve nesta semana em Londrina, divulgando o resultado de uma pesquisa de marcas no Paraná e, em entrevista à FOLHA, falou sobre as deficiências das políticas públicas do esporte, que valorizam muito pouco a importância dos professores de educação física. Para o futuro da vela, aposta em nomes como o o da sobrinha Martine Grael, que fará dupla com Isabel Swan - medalhista de bronze em Pequim - e do paranaense Alan Godoy, de Foz do Iguaçu, que é a grande revelação do mundo da vela, pois é oriundo da água doce. Confira mais abaixo.

FOLHA - O que te levou a praticar vela?
Lars Grael - Uma influência de família. Meu avô era dinamarquês, portanto, trazia um espírito viking, de navegadores. Os meus tios e minha mãe também velejaram, tanto que foram campeões mundiais. Isso exerceu influência e trouxe vontade de seguir. Fomos lutando e buscando oportunidades até que se abriu o horizonte da vela olímpica.

Folha - Com dois bronzes olímpicos e inúmeros títulos nacionais e internacionais, como vê sua influência entre os jovens velejadores?
Grael - Acho que todos nós atletas olímpicos, sobretudo desta pequena elite de medalhistas, somos formadores de opinião. Com isso exercemos influência sobre novas gerações e tudo que falamos e fazemos causa impacto. Por isso é importante trazer uma voz de experiência, de esperança, força de vontade, determinação e mostrar que o esporte é um ciclo virtuoso de vida que vale a pena o jovem seguir. Isso independe de chegar ao nível olímpico, ou não. O importante é sonhar e ter o esporte como componente de bem-estar e qualidade de vida.

FOLHA - Nomes que podem render títulos e alegrias no futuro da vela?
Grael - Temos equipe olímpica de vela muito sólida. Eu acho que depois do Reino Unido, somos os mais importantes do mundo, rivalizando com Espanha, Alemanha, Estados Unidos e Nova Zelândia. Falando na classe Optimistic, que têm revelado ótimos nomes, temos alguns talentos em curso que podemos pensar para 2016, como minha sobrinha chamada Martine Grael. Ele já foi campeão mundial da juventude e recentemente se juntou à Isabel Swan, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, de Pequim. É uma dupla extremamente promissora. Também há nomes na prancha-vela (classe RSX). Inclusive, há um velejador paranaense, da Classe Laser, que se chama Alan Godoy, de Foz do Iguaçu. Para nós do mundo da vela é uma grande novidade um velejador talentoso oriundo da água doce, onde a vela não tem a menor tradição. Para 2016, com certeza é um dos nomes.

FOLHA - Como o acidente que amputou tua perna mudou sua vida?
Grael - Mudou muito em termos de valores, referências de vida. (com a voz embargada). De lá para cá, tive que reaprender a viver e buscar novos objetivos, redefinindo a minha missão como profissional e pai. Na época, surgiu a opção da gestão esportiva. Eu carrego hoje uma deficiência física, mas acho também que saí engrandecido do ponto de vista de experiência e vontade de viver.

FOLHA - O que mudou?
Grael - Eu passei a dar valor à vida muito mais do que antes. Até mesmo velejar, que eu continuo fazendo, competindo e acumulando títulos, mas hoje em dia a satisfação que tenho com eles é muito maior. Até então minha vida se resumia a agregar troféus e medalhas à minha estante e hoje não. Agora eu vejo que posso compartilhar tudo isso com pessoas que são impactadas por isso. Ao ver um velejador que perdeu a perna e com desvantagens do ponto de vista técnico e físico ainda conquistar títulos é uma demonstração de força de vontade. Isso serve para impactar pessoas que passam por situações semelhantes, porque sei do quanto foi importante para mim quando mais precisei de exemplos de vida deste tipo.

FOLHA - Na época do acidente, você pensou em parar?
Grael - Quando houve o acidente meu primeiro raciocínio foi de que minha carreira havia acabado. Quando falavam em competir na vela já dava como assunto encerrado. Até porque, no mar que foi onde dediquei minha vida foi também onde quase perdi minha vida. Mas, meses depois a paixão falou mais alto e aos poucos fui voltando.

FOLHA - O esporte é uma coisa de elite? Ou não, os projeto sociais dão conta de incluir a todos?
Grael - O esporte é direito de todos e dever do estado proporcionar a prática esportiva no sentido educacional, participativo e lúdico. Nós deveríamos ter políticas públicas de saúde preventiva pautadas por programas nacionais de estímulo a atividade física e contra o sedentarismo. Nossas políticas são deficientes neste sentido, porque não contemplam valorização do profissional de educação física, da estrutura esportiva na escola. Hoje, o esporte educacional está quase sempre à mercê de secretarias municipais, estaduais, assim como do Ministério do Esporte.

FOLHA - Como enxerga as políticas públicas de esportes?
Grael - As políticas públicas ainda são deficientes. Já houve avanço notável ao longo do tempo - e acredito que ele continua em curso. Basta ver que existe um ministério específico do esporte, recursos públicos orçamentários se multiplicando. O Brasil vem captando grandes eventos e com isso vamos avançando. Mas o que falta no Brasil ainda é o avanço que é o dever do Estado. Se você pegar perante a Constituição da República, há apenas um artigo que rege sobre a constituição do esporte. É o artigo 217, que fala que é dever do estado priorizar o desporte educacional, que na prática não é verificado.

FOLHA - Por que não se verifica na prática?
Grael - Se comparar o orçamento que o poder público coloca em escolinhas e clubes de futebol, em estados que garantem bilhões em investimentos para sediar chaves da Copa Mundo, além dos investimentos em Pan-Americanos e Olimpíadas, para com os gastos feitos nas Olimpíadas Escolares, que estão acontecendo em Maringá e Londrina a desproporção é grande. Por exemplo, não acho justo que uma delegação de atletas, seja de Alagoas ou Roraíma, a despesa de transporte seja do Estado. Em competições nacionais, esse papel seria do Ministério dos Esportes, mas não é. A alegação é de que não tem verba para isso, mas para outras coisas têm.

FOLHA - Falando em categorias de base, o modelo praticado é o correto?
Grael - A base correta seria a escola, mas não temos uma política esportivo-educacional no Brasil. Definitivamente, não há. A base que sempre existiu são os clubes, que hoje vivem em crise existencial muito grande. Até os anos 70, eles representavam um lugar de convivência social, recreativa e entretenimento. Eles constituiam uma projeção da elite da sociedade e ofereciam atividades esportivas. Hoje os clubes competem com os próprios condomínios, shopping centers, internet e academias de ginástica. Então, muitos estão encerrando a atividade, com excessão dos grandes que ainda sobrevivem. Cito o voleibol, que usa o mesmo sistema de gestão na categoria de base e profissional. São os mesmos treinamentos e investimentos, que garante nível técnico na base. Outros esportes deixam a base ao acaso.

FOLHA - O que é a vela para você?
Grael - É paixão, liberdade, buscar o horizonte e ter cumplicidade com o vento. Acho isso muito bonito.

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