O título que Michael Schumacher e a Ferrari conquistaram domingo, no Japão, não é um fato isolado na Fórmula 1, daqueles que ninguém sabe ao certo como foi conseguido. Mesmo porque, diferentemente do passado, esses ‘‘acidentes’’ nem têm mais espaço na competição, tal a complexidade exigida das organizações para vencer.
A Ferrari foi campeã em razão de estar trabalhando, desde 1993, na criação de uma estrutura compatível com o que a Fórmula 1 impõe para se chegar às primeiras colocações. O pequenino francês Jean Todt estreou na equipe, como diretor esportivo, no GP da França daquela temporada.
Desde então uma nova mentalidade começou a ser formada, um novo método de trabalho se desenvolveu e, principalmente, respeito às soluções de continuidade.
Antes dele, cada título perdido representava uma devassa na escuderia. Começava-se sempre do zero. Todt recebeu apoio do presidente da empresa, Luca di Montezemolo, para a implantação de sua filosofia distinta da existente, tarefa nada fácil diante da forma de viver dos italianos, onde as reações são fruto mais da emoção que da razão.
Todt teve tudo o que pediu, as contratações milionárias de Michael Schumacher, no fim de 1995, e de Ross Brawn e Rory Byrne, engenheiros que foram campeões com o alemão na Benetton. Montezemolo lhe deu até o tempo solicitado, três anos depois da chegada de Schumacher, para que seu novo time pudesse funcionar e disputasse o título.
Nas temporadas de 1997, 1998 e 1999, a Ferrari perdeu o campeonato na última etapa, onde conta a eficiência do grupo mas muito também o imponderável. A Ferrari perdeu para a Williams em 1997 e nos dois últimos anos para a McLaren. Domingo, na quarta tentativa, deu certo, como poderiam, perfeitamente, ter dado certo nos três mundiais anteriores.
O que está claro depois dessas quatro temporadas, em que a Ferrari venceu uma vez e quase nas outras três, é que a tal da estrutura vencedora planejada por Todt de fato existe. A Williams, depois de 1997, não fez mais nada. Antes disso, era a McLaren que colecionava fracassos desde a saída de Ayrton Senna, no fim de 1993. A Ferrari – para quem também pilota o brasileiro Rubens Barrichello – foi a única que manteve-se na briga desde 1997.
É por conta dessa estrutura seguramente vencedora que a perspectiva da Ferrari na Fórmula 1 é a melhor possível. O título estimulará ainda mais investimentos da Fiat, sua proprietária, e de seus patrocinadores, que pagam 40% da conta.
A Ferrari conquistou o mais difícil: criar uma organização capaz de lutar pelas vitórias. O título é consequência. Hoje na Fórmula 1 só dinheiro não garante essa tal estrutura que se faz com um grande orçamento, claro, grandes profissionais, mas notadamente um método definido e bastante focalizado de trabalho. O dinheiro não é o maior desafio. O complexo é fazer o grupo funcionar em sintoniza, sem falhas.
Não há mais espaços para improvisações na Fórmula 1. O maior mérito de Todt foi de especificar, com competência, cada função da sua organização – sem desvios constantes de rota – e fazer com que o responsável, sempre um profissional muito bem preparado, desse tudo de si. Da área de projeto à dos treinamentos dos pit stops, passando pelas relações com patrocinadores e desenvolvimento de novas tecnologias. Em 1997, 1998 e 1999 ficou provado que ainda assim pode não dar certo. Agora deu. E, pelo visto, tem tudo para dar certo várias outras vezes.