Terremoto no futebol
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quarta-feira, 27 de maio de 2015
Jamil Chade <br>Agência Estado 
Zurique - "Mas sou apenas eu? Onde estão os outros?" Foi com essa frase que, perto das seis horas da manhã do horário suíço (1 hora no de Brasília), o brasileiro José Maria Marin foi levado por policiais suíços a um carro e conduzido para uma prisão. A Justiça suíça cumpriu ontem um pedido do FBI de colocar na prisão e extraditar dirigentes esportivos da Fifa, aproveitando justamente que estariam todos na mesma cidade para o Congresso da entidade.
Não houve chute na porta do luxuoso hotel Baur au Lac e nem algemas por parte de uma dúzia de policiais. Marin teve até suas malas levadas pelos policiais. Mas o impacto foi de um verdadeiro terremoto no mundo do futebol, com o indiciamento do brasileiro e de mais outros dirigentes por corrupção, lavagem de dinheiro, fraude, conspiração e extorsão, o que poderia valer 20 anos de prisão.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, eram os procuradores suíços que invadiam a Fifa para confiscar documentos apontando para irregularidades e crimes na designação dos Mundiais de 2018 e 2022. As autoridades deixaram claro aos funcionários da entidade de que ninguém deveria deixar o país, nem mesmo o presidente Joseph Blatter.
Não seria por acaso. O que a investigação revela é uma "cultura da corrupção" que envolvia a entidade há 24 anos e que movimentou pelo menos US$ 150 milhões. Compra de votos para a Copa de 2010, compra de apoio para a eleição de Joseph Blatter em 2011, Copa Libertadores, Copa América, Copa do Brasil em 2014 e as suspeitas sobre os Mundiais de 2018 e 2022 são apenas alguns dos principais destaques de uma ampla investigação conduzida nos Estados Unidos e na Suíça.
Além de Marin, mais seis pessoas seriam presas ontem, em um esquema que também envolveu um total de 14 executivos indiciados pelos norte-americanos. Entre eles estão Eduardo Li, o primeiro a descer de seu quarto, Jeffrey Webb e Eugenio Figueredo, enquanto esposas choravam no lobby do hotel. Doze horas depois, Jack Warner, ex-vice-presidente da Fifa, se entregaria.
Cada um dos detidos foi levado a uma prisão diferente e aguardam a extradição aos Estados Unidos. Praticamente todos já indicaram que vão recorrer, o que deve fazer com que o processo se arraste por seis meses. Em 40 dias, a Justiça norte-americana terá de convencer os juízes suíços da legalidade da extradição.
Nem a Justiça norte-americana e nem a suíça garantem que o presidente da entidade, Joseph Blatter, está fora de risco, ainda que a Fifa insista que ele está "relaxado". "Isso vai depender da direção que o caso tomar agora", admitiu um procurador suíço. "Esse é o começo, não o fim", comentou a procuradora norte-americana Kelly Currie. Além dos 14 indiciados, outros 25 nomes são apontados como suspeitos. Mas ainda não foram denunciados oficialmente. Por enquanto, são acusados de fraude, corrupção e lavagem de dinheiro.
A delegação da CBF não escondia o nervosismo e o presidente Marco Polo Del Nero chegou a deixar uma reunião pelas portas do fundo para evitar ter de falar com a imprensa. Nos documentos da Justiça, as referências indiretas ao ex-presidente Ricardo Teixeira são amplas. Mas ontem ele desembarcou no Brasil, fugindo para o lugar que, em 2012, ele fugiu.
Na ampla lista de crimes, a investigação aponta para alguns emblemáticos. Na escolha para a sede da Copa de 2010, na África do Sul, o então vice-presidente da Fifa, Jack Warner, recebeu uma mala com US$ 10 mil para votar pelo país. Marrocos, dias depois, ofereceu US$ 1 milhão. Os sul-africanos então ampliaram a oferta a US$ 10 milhões a três dirigentes.
Ainda ontem, a Fifa fez questão de banir de forma temporária do futebol todos os envolvidos, inclusive Marin, mesmo que há poucas semanas alguns deles eram considerados como aliados de Blatter na eleição. "Não vamos tolerar essa atitude", disse Blatter.
Diante do caos, coube à Fifa tentar abafar a sua pior crise. "Dói. Mas esse é um bom dia para a Fifa", declarou o porta-voz da entidade, Walter de Gregorio. O comentário gerou a indignação de opositores de Blatter.


