Prova de Fogo
Na entrada da quadra central de Wimbledon, os dizeres de Rudyard Kipling: ‘‘Se puderes enfrentar o Triunfo e a Derrota. E tratar esses dois impostores como iguais.’’... Jogar em Wimbledon é uma experiência inesquecível. O torneio dá-se ao luxo de distribuir milhões de dólares aos jogadores apenas com a venda dos bilhetes de entrada, sem ajuda de patrocinadores. A família real assiste aos jogos da ‘‘centre court’’ de camarote, e as entradas para as finais são compradas com dois anos de antecedência. Para jogar nas quadras de grama, os tenistas precisam de tempo para adaptação. Gustavo Kuerten chegou às quartas-de-final e demonstra estar bem no piso de grama. Amanhã enfrentará Andre Agassi, campeão de Roland Garros e de Wimbledon em 1992. O jogo promete ser espetacular e na minha opinião Guga tem chance contra o norte-americano. Para vencer precisa jogar tudo que sabe e se sacar muito bem, já que Agassi é dono de uma das melhores devoluções de saque do mundo. Será uma prova de fogo para o brasileiro.
Guga está jogando muito bem e enfrentará nas quartas de Wimbledon uma situação de jogo oposta a de Roland Garros. Na França ele era favorito e sentiu a pressão contra Medvedev. Parou de bater na bola, seu ponto forte, preferindo jogar com mais ‘‘topspin’’ e maior segurança, o que facilitou a partida para Medvedev. Agora, em Wimbledon, Guga terá a oportunidade de provar que realmente é um grande jogador em qualquer tipo de piso. Se jogar mais solto, arriscando um pouco mais e levando sorte nos momentos decisivos, Guga poderá exigir que seu técnico rape também o bigode.
‘‘Last eight’’ em Wimbledon é uma honra muito grande para qualquer tenista. E Guga chegou lá sem deixar nenhuma dúvida. Venceu todos os jogos com ‘‘ccc’’ (coragem, confiança e concentração), fatores determinantes num jogo de tênis. Para se ter uma idéia da dificuldade de chegar entre os oito melhores, basta olhar para a chave de Wimbledon. São 128 tenistas disputando o principal torneio de tênis do mundo, onde não se pode perder nenhum jogo. Os 116 melhores do ranking mundial entram direto na chave, oito vagas são para os tenistas classificados na chave do ‘‘qualy’’, que precisaram vencer três jogos consecutivos, e oito lugares são reservados para os ‘‘wild cards’’, tenistas convidados pela organização do torneio. Dá-lhe Guga!!!
Gisele Miró é tenista profissional e escreve sempre às terças-feiras na Folha
(Excepcionalmente a coluna está saindo hoje).

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