Tênis (Gisele Miró)
Tênis (Gisele Miró)
Simples demais
para um superstar
Gustavo Kuerten é um jovem campeão, que apesar da fama, mantém os pés no chão. Com seu jeito simpático e extrovertido, encantou o mundo do tênis. Ídolo de um esporte elitizado no Brasil, conseguiu com suas façanhas colocar o tênis em evidência, fazendo com que as crianças de todas as classes sociais sonhem um dia em seguir seus passos. A meteórica ascensão começou no ano passado com o título em Roland Garros, um dos quatro mais importantes e conceituados torneios de tênis do mundo.
Em pouco tempo nosso querido Mané da Ilha deixou o anonimato para fazer parte do rol das estrelas internacionais. Bem estruturado psicologicamente, Guga não se deslumbrou com a fama repentina. Modesto e despretensioso, ao invés de continuar encantando as platéias com seu estilo arrojado e perfeito para as quadras de saibro, preferiu aprender e desenvolver ainda mais seu jogo, participando de torneios em quadras rápidas.
Se a intenção era boa, o resultado não foi o esperado. Guga foi derrotado por jogadores que venceria com facilidade em quadras de saibro. Perdeu a confiança e desde então alterou bons e maus momentos. Sem ritmo de jogo, pôs em dúvida sua real capacidade técnica. Para piorar, disputou o Campeonato Brasileiro de Tênis e perdeu. Guga era um top ten sem rumo. Preferiu confiar no esquema amador e familiar, do que se arriscar com os mega empresários internacionais. Convites não faltaram! Era inadmissível para um jogador de seu gabarito abandonar os treinos para resolver problemas bancários, viajar sem conforto ou se hospedar em hotéis de duas estrelas.
Só no ano passado Guga faturou em torno de dez milhões de dólares. A inexperiência em lidar com a privilegiada, mas assustadora posição de top ten, custou valiosas posições no ranking internacional. Guga caiu da 8º para a 27ª posição.
Na Copa Davis contra a Espanha, se empolgou com a torcida e exagerou nas comemorações, recebendo críticas de técnicos e tenistas de diversos países. Carlos Moya garante que perdoou o amigo, mas com Alex Corretja o relacionamento nunca mais foi o mesmo. Em Roland Garros este ano, nervoso e pressionado, terminou desclassificado do torneio por atitude antidesportiva. As lições foram duras, mas necessárias. Larry Passos seu treinador, reviu o calendário e mudou a estratégia.
Guga voltou a jogar em quadras de saibro e passou a se preocupar menos com os problemas extra quadra. Os resultados voltaram a aparecer. Foi campeão em Stuttgart e em Palma de Mallorca, onde derrotou Sergi Bruguera, Thomas Muster e Carlos Moya, todos especialistas em quadras de saibro e campeões de Roland Garros. Não me surpreenderia ver Guga novamente entre os melhores do mundo, o que seria determinante para o futuro do tênis brasileiro.
Gisele Miró é tenista profissional e escreve sempre às terças-feiras na Folha





