Tênis - Gisele Miró
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de novembro de 1998
GISELE MIRÓ Jogando com os nervos 
Gustavo Kuerten é um dos melhores jogadores do mundo em quadras de saibro. No entanto, nos torneios realizados na América do Sul, onde era um dos favoritos, Guga decepcionou. Jogar em seu piso preferido e enfrentar adversários que ocupam perto da 200ª posição no ranking mundial acabou mexendo com os nervos de nosso ídolo. Acostumado a grandes jogos e a derrotar os melhores do mundo, Guga nitidamente não se sente à vontade quando tem obrigação de vencer.
No tênis é comum jogadores profissionais sucumbirem algumas vezes à pressão, como aconteceu com o Guga. O chileno Marcelo Rios, por exemplo, perdeu em casa a oportunidade de desbancar Pete Sampras do topo do ranking, numa situação de superioridade técnica frente seus adversários, muito parecida com a do Guga. Se jogadores deste nível não conseguem muitas vezes superar a pressão, o que dizer dos tenistas sem a mesma experiência que disputam torneios locais? Jim Lhoehr, psicólogo de vários jogadores de alto nível e contribuinte do The mental notebook, da revista Tennis, ensina:
1 - Não importa quem você seja, jamais estará imune ao nervosismo.
2 - Controlar os nervos é a grande conquista nos esportes. Em comparação, os golpes e a estratégia são fáceis.
3 - Cada situação competitiva é diferente das outras e exige reações distintas por parte das pessoas. Wimbledon, por exemplo, não é a Copa Davis e Wimbledon, num dia que você esteja de bem com a vida, é diferente de Wimbledon num dia com problemas extraquadra.
4 - Quanto maior a importância dada a cada evento e dependendo de suas chances reais, mais difícil controlar os nervos.
Tente este teste. Imagine que se você conseguir chorar em dois minutos ganhará R$ 10.000. Você terá que criar uma situação psicológica, controlar seu mecanismo hormonal, seu batimento cardíaco, seu condutor lacrimal e assim por diante. Para conseguir chorar terá que se concentrar em imagens que evoquem tristeza. Seu rosto terá que parecer realmente infeliz; se você sorrir, perde. Se em algum momento do teste você pensar: sim, vou ganhar R$ 10 mil, este simples pensamento mudará toda sua química corporal e em segundos você perderá.
Adicionemos, então, um novo elemento ao teste: se não conseguir chorar em dois minutos, terá que pagar R$ 10 mil. Se começar a pensar em sua conta bancária, no que seus amigos vão dizer, sobre o quanto estúpido tudo isto pode parecer ou qualquer tipo de pensamento, você, instantaneamente, fracassará.
Este teste é um pequeno exemplo do que os atletas enfrentam durante a competição. Para eles, é claro, não é a tristeza que deve ser reproduzida, mas a confiança, energia, calma e concentração. Se você não conseguir controlar seus nervos, não significa que você seja um perdedor. Provavelmente neste dia você deu uma importância muito grande a circunstâncias particulares e não conseguiu criar a condição mental, física ou emocional necessárias para controlar seu gênio.
5 - A precisão dos pensamentos e da reação são chaves para controlar os nervos. Os rituais dentro da quadra, respiração controlada, linguagem corporal positiva, expressão de confiança e imaginar situações de sucesso ajudam. Mas, às vezes, nos momentos mais difíceis até eles não funcionam. É perfeitamente possível ser um grande competidor e ocasionalmente tremer. Grandes atletas como Guga, Greg Norman (golfe) e Ronaldinho (futebol), que estão sempre convivendo com as grandes oportunidades, também tremem.
6 - Se o medo te fizer tremer, admita. Não há vergonha nenhuma nisso, os nervos fazem parte do jogo. Acontece com todo mundo.


