TEMPERO BAIANO - Uéslei, com fome de gols, farinha e carne seca
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sábado, 29 de março de 2008
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Um feijãozinho, com farinha e carne seca. Prato típico do Nordeste brasileiro, que dá bastante sustância e que ganhou espaço no Japão. Afinal, é um dos preferidos de um baiano arretado, que conquistou os japoneses com seus gols até se tornar o maior artilheiro estrangeiro da J-League, a Primeira Divisão do Campeonato Japonês.
A marca é um dos orgulhos do atacante brasileiro Uéslei, que foi ganhar lá na terra do sol nascente o prestígio no futebol. Uéslei acaba de iniciar sua oitava temporada no futebol japonês. Nesse período, balançou as redes rivais por 116 vezes somente na J-League. ''É um orgulho muito grande. Afinal, quantos jogadores estrangeiros, principalmente brasileiros, como o Zico, por exemplo, não jogaram no futebol japonês nesses últimos 20 anos? Ter feito mais gols que todos eles é motivo de grande satisfação'', revelou o jogador.
Uéslei começou a carreira no Bahia, onde é ídolo, passou por grandes times brasileiros, como Cruzeiro, Flamengo, São Paulo, Inter e Atlético-MG, mas o sucesso veio mesmo no Japão. Foram cinco temporadas pelo Nagoya Grampus. Em 2003, foi o artilheiro do campeonato com 22 gols. Chegou a voltar ao Bahia, em 2005, mas retornou ao Japão no ano seguinte e defendeu o Sanfrecce Hiroshima por duas temporadas, até acertar com o Oita Trinita, seu clube atual. Será que ele ainda pensa em voltar ao Brasil?
''Olha... Na verdade eu já estava pensando em encerrar minha carreira há uns dois anos, mas os clubes japoneses não deixam! (risos). Eu queria parar no final de 2006, mas o Sanfrecce Hiroshima propôs mais um ano de contrato. Em dezembro do ano passado, já estava me preparando para pendurar as chuteiras, mas surgiu uma proposta irrecusável do Oita. Acho que de 2008 não passo'', diz o atacante. ''Afinal, já vou completar 36 anos no mês que vem''.
Uéslei contou que o segredo para o sucesso fora do Brasil é trabalhar sério e procurar se adaptar o mais rápido possível à cultura e ao estilo de jogo do país.
Segundo o baiano, a timidez japonesa faz com que os torcedores sejam contidos nas manifestações diante dos ídolos. ''Existe um assédio sim, mas a diferença em relação ao Brasil é que aqui as pessoas respeitam um pouco mais os ídolos. Se estou em um restaurante, por exemplo, o fã não vai pedir um autógrafo enquanto eu estiver à mesa. Além disso, os japoneses, em sua grande maioria, são muito tímidos'', analisou.
Cultura
Além das diferenças dentro de campo, Uéslei teve que se adaptar à cultura japonesa, bem diferente da brasileira. Para isso, contou com a ajuda de outros brazucas que estavam por lá. ''No início, lógico, senti um pouco de dificuldade, mas a forma como fui recebido pelos meus companheiros de clube, na época no Nagoya Grampus, me ajudou bastante nos primeiros meses. Agora, depois de oito anos, já me sinto uma mistura entre baiano e japonês (risos)'', contou.
A adaptação à comida foi mais difícil, mas ele também tirou de letra, sem se esquecer dos temperos baianos. ''Imagine um baiano comendo peixe cru! Fica difícil. Mas aos poucos eu fui experimentando algumas coisas e passei até a gostar de alguns pratos. Mas, é claro, jamais dispensei o feijão, a farinha, a carne seca...'', comentou.
Outra barreira japonesa foi o idioma. Até hoje ele ainda tropeça nas palavras. ''Claro que o básico a gente vai aprendendo, como as palavras mais utilizadas dentro de campo, os cumprimentos e o que pedir em um restaurante. Mas o japonês, realmente, é muito complicado'', reconheceu.
Amizades
Casado e pai de três filhos, Uéslei gosta de ficar em casa nas folgas, mas de vez em quando pega o carro e vai conhecer lugares próximos às cidades onde mora. Com muitos brasileiros morando no Japão, conseguiu fazer um ciclo de amizades e ameniza a saudade do Brasil. ''A gente acaba formando um grupo de amigos não só entre os que jogam no mesmo time, mas com profissionais de outras áreas que trabalham na cidade também'', afirmou, lembrando que os companheiros de clube sempre possuem uma relação mais próxima. ''No momento, meus amigos mais próximos são o Roberto (ex-Ponte) e o Edmilson (ex-Londrina), que jogam comigo no Oita''.
Às vezes também recebe a visita de parentes e amigos do Brasil. ''A viagem é muito longa e meu pessoal também tem suas atividades lá na Bahia. Mas, sempre que possível, eles passam um tempo aqui comigo, sim'', conclui.


