São 36 câmeras espalhadas por todos os cantos do estádio e milhões de torcedores sedentos por justificar a derrota do time com um erro do árbitro. Afinal, a culpa sempre é deles. Faz parte o atacante perder o gol debaixo da trave, o zagueiro ou o goleiro falhar. Mas se o homem do apito errar, vai para a crucificação. Com esse monte de recurso tecnológico, que mostra cada mínimo detalhe de uma partida de futebol, os árbitros viram a vida ficar ainda mais complicada e já direcionam seus treinamentos pensando em amenizar esses equívocos na hora de apitar.
Everaldo Lambert, de 36 anos, faz parte do quadro de árbitros da Federação Paranaense de Futebol (FPF), desde 2001. Para ele, as emissoras investem pesado demais no futebol e, por isso, vão explorar ao máximo o espetáculo. Porém, questiona o benefício disso para o jogo. "Isso fomenta um erro que você sabe que vai existir. Depois surgem casos que colocam em suspeita a lisura do campeonato por causa disso", protestou. ""As emissoras investem demais nas transmissões e querem extrair o máximo da transmissão", apontou Antonio Denival de Morais, que se aposentou este mês por ter atingido a idade limite de 45 anos.
Ele lembrou que há casos de haver cinco câmeras apenas em uma das traves. Ele viu essa ameaça tecnológica como uma ferramenta para mudar a foram de tratamento dado pelas federações aos árbitros. "Despertou nos dirigentes a importância que tem que se dar ao árbitro dentro de campo. Hoje, estão investindo aos poucos em preparação, mas já é bem mais do que antigamente", afirmou, lembrando da pré-temporada realizada entre os árbitros paranaenses e nos testes da CBF.
Integrante da comissão que cuida da preparação dos árbitros na Associação Paranaense de Árbitros de Futebol (Apaf), Denival contou que os vídeos dos jogos são assistidos e debatidos nos treinamentos dos apitadores. "Não podemos comparar ao que havia há 20 anos, quando comecei. Essa evolução expôs o árbitro aos erros. Mas esse avanço acompanha o mundo", comentou.
Leonardo Zanon, de 29 anos, faz parte do quadro da CBF desde 2008. É apontado como uma das promessas da arbitragem londrinense e paranaense. Ele conta que o treinamento e a dedicação do árbitro é cada vez mais parecida com a de um atleta. "Nós, do quadro nacional, temos um pouco mais de treinamento, mas as informações são as mesmas passadas para as federações. Nos últimos tempos, tem se falado muito em um ponto futuro, que significa que o árbitro tem que ter uma leitura dinâmica do jogo. Quando o jogador vai lançar, por exemplo, ele já tem que correr buscando o posicionamento correto antes mesmo do jogador chutar a bola", exemplificou. "Hoje, temos um grupo que trabalha para trazer benefícios ao árbitro para que não caia nas armadilhas das câmeras, tudo baseado em estudos", completou Lambert.
Professor universitário de educação física, ele ressaltou o avanço no condicionamento físico no futebol moderno e o consequente acompanhamento dos árbitros. Ele contou que as próprias federações preparam o ciclo de treinamento, assim como a comissão de arbitragem da CBF. Porém, o custo para o treinamento é todo do árbitro. "Corremos em média de 11 a 12 quilômetros por jogo. Chego a perder dois quilos em um jogo à tarde, com calor de 30 graus", contou.
Zanon concorda com o colega de apito. "Hoje, o principal é o condicionado físico. O jogo está muito mais rápido e o contato físico é muito maior. Isso dificulta o jogo. O árbitro toma em média 150 decisões por jogo. Número muito alto. Aos 45 do segundo, cansado, a oxigenação no cérebro não é a mesma e o raciocínio lógico também não, por isso a preparação física. Estamos nos tornando cada vez mais atletas", apontou.

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