Fernando Tupan Marcos Freitas
Nos bons tempos do futebol romântico, os melhores jogadores, os craques, estavam no meio-de-campo. Nomes difíceis de esquecer, como Didi, o inventor da folha-seca; Gérson, o canhotinha de ouro; Rivelino, o príncipe do parque; e Pelé, o rei, o atleta mais completo da história. Hoje, no entanto, nas quatro equipes semifinalistas do Campeonato Paranaense, os treinadores esqueceram o passado e optaram por escalar no espaço sagrado do meio-campo uma maioria de jogadores de destruição.
Na inagualável seleção de 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato, o setor da inteligência estava no meio, formado por Clodoaldo, Rivelino, Gérson e Pelé. Hoje, esses craques são apenas saudades de anos dourados. O futebol brasileiro encolheu e passou a jogar diferente. No futebol paranaense não foi diferente, o meio-campo também passou a ser ocupado excessivamente por destruidores. Os criadores são logo vendidos para times de fora. Alex, ex-Coritiba, é uma lembrança bem recente. Hoje ele brilha no Palmeiras.
Os técnicos paranaenses optam geralmente por três ou até quatro destruidores ou volantes como são chamados. O Coxa, por exemplo, joga com Mozart, Luiz Carlos e Struway na destruição e, para o Atletiba de domingo, Abel Braga estuda colocar Ataliba no lugar de Yan, substituto de Darci, o criador do alviverde, mas assíduo frequentador do Departamento Médico.
A casa atleticana também não é a casa da criação. O treinador Antônio Clemente usa dois volantes. Quando o jogo é fora de casa ou contra uma equipe de maior envergadura, Clemente tira da manga um terceiro destruidor. Nos treinos da semana, o Atlético fez segredo e promete uma surpresa. Pode ser a inclusão do terceiro volante. Se realmente isso acontecer, Kelly ou Sandoval, meias ofensivos, cedem a camisa para Sidney. Adriano vai gravitar entre os volantes, solitário.
Esperanças existem no Atlético e no Paraná. No rubro-negro ele chegou até mesmo à seleção, não a principal, mas a sub-23. Adriano tem velocidade como Garrincha, protege a bola como Vampeta, do Corinthians, mas precisa aprender a perder o medo de errar. No tricolor, Lúcio Flávio lança com estilo, finaliza com precisão e bate faltas como nenhum outro jogador do Estado.
O Paraná é a equipe que mais radicalizou este ano. O técnico Márcio Araújo utilizou um caminhão de meias, metade destruidores, para chegar ao estágio atual. Hélcio, Reginaldo Vital, Fernando, Émerson são os que mais se destacam. A composição do meio se completa com ofensivos como Lúcio Flávio, Fernando Diniz, Carlos Alberto Dias, Valdeir, Everaldo e Itamar.
Mauro Madureira, o técnico revelação do Paranaense, também utiliza do expediente de três volantes em seu time. Ademir, Nivaldo, Paulo César e agora Márcio Giovanini são os destruidores prediletos de Madureira. Marcelo Tamandaré completa o meio, mas sua função é ofensiva.
Os torcedores coxas ainda não esqueceram a perda de Alex, o meia que segue as tradições dos jogadores clássicos do futebol brasileiro. O Atlético ainda procura craques com as características de estrelas como Lupércio, nos 40; Sano, nos 50; Sérgio Lopes, nos 70/80; e Nivaldo, nos 80. O Malutrom ainda não teve passado e o Paraná tem uma história muito curta, mas na qual pode-se lembrar de Caio Junior, Marinho, Ricardinho e Paulo Miranda.
Na memória coxa-branca um meio-de-campo criativo é coisa farta. Quem não se lembra dos anos 70 com Hidalgo, Negreiros e Leocádio? Em 85, na conquista do Campeonato Brasileiro com Almir, Tobi e Marco Aurélio e na última vez que levantou a taça de campeão paranaense, em 89, quando o time jogava por música comandado pelo maestro Tostão e seus companheiros Osvaldo, Serginho e Carlos Alberto Dias?
Hoje o meio-de-campo que tem a missão de acabar com o jejum alviverde não é tão habilidoso assim. O Coritiba joga com Luis Carlos, Struway, Mozart e Yan. No Atletiba de domingo o setor pode ter mais um marcador: o garoto Ataliba chama atenção de Abel Braga e pode ser utilizado no próximo domingo.
Jogar com o meio-de-campo congestionado não é apenas uma forma tática do time atuar, é sim um estilo que Abel Braga usa defendendo a tese de que jogará com o regulamento debaixo do braço, onde o Coritiba consegue a vaga para as finais com três empates. Mas se precisar vencer? Abel não titubeia: ‘‘Vamos jogar para vencer’’. Segundo ele, a tática daí para diante passa a ser a pressão. ‘‘Quando precisamos do resultado jogamos em cima do adversário’’, explica. ‘‘Sem esquecer da marcação’’, é lógico.
Para o capitão Luis Carlos, o fato de o Coritiba não ter jogadores muito habilidosos no meio-de-campo não faz do time apenas marcador. ‘‘Os homens da frente vêm comprovando que sabem balançar as redes’’, disse. Para ele, o futebol ficou mais competitivo de uns anos para cá e a forte marcação na meia-cancha é obrigatória. ‘‘Hoje não podemos mais ter aqueles jogadores que tiram o pé nas divididas, o futebol só aceita o jogador que acredita em todas as bolas, nem que seja de bico’’, avalia.
No Malutrom a base é que conta. Nivaldo, Paulo Cesar Jatobá e Tamandaré jogam juntos desde o ano passado. Quando Mauro Madureira quer mais marcação, o zagueiro Marcio Giovanini entra na meia-cancha dando mais ênfase no desarme. Grandes responsáveis pela conquista da segundona no ano passado, o meio-de-campo do Malutrom vive de bons passes do volante Nivaldo, que é o jogador que mais trabalha para o time, à boa marcação de Jatobá passando pelos gols do meia-atacante Marcelo Tamandaré que só neste Paranaense já marcou cinco gols.
O supervisor do Malutrom é Ivair, ex-meia do Atlético que encantou o Brasil em 83, com o casal 20, Washington e Assis, além de Lino, Nivaldo e Capitão. Relembrando seus velhos tempos, Ivair diz que hoje os times que disputam uma vaga na final, têm no máximo dois jogadores que desequilibram. ‘‘No meu tempo eram quatro ou cinco’’, disse. Segundo ele, isso se dá pela alta competitividade no esporte. ‘‘Não temos tempo de criar um craque, o futebol moderno quer resultados’’, explica.

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