Vice-campeã do Aberto da Austrália, Simona Halep foi internada com quadro de desidratação após a final: sem período de recuperação adequado entre um jogo e outro
Vice-campeã do Aberto da Austrália, Simona Halep foi internada com quadro de desidratação após a final: sem período de recuperação adequado entre um jogo e outro | Foto: Paul Crock/AFP



A sobrecarga física causada por uma grande sequência de partidas é uma das principais causadoras de lesões no esporte. A discussão sobre o calendário extenso é pauta em várias modalidades, passando pelas coletivas, como futebol e basquete, e chegando às individuais, como o tênis. No futebol, por exemplo, o calendário do primeiro semestre de 2018 será comprimido em menos tempo devido à disputa da Copa do Mundo – o Campeonato Brasileiro, que tradicionalmente começa em maio, começará um mês antes.

Em outros esportes, o calendário é um problema há algum tempo. No tênis, por exemplo, o debate foi potencializado após a disputa do primeiro grande torneio do ano. O Australian Open – um dos quatro Grand Slams do circuito da ATP (masculino) e da WTA (feminino) – foi disputado num espaço de 20 dias, de 9 a 28 de janeiro.

Além do curto período, o torneio ocorreu no auge do verão australiano e os termômetros chegaram a ultrapassar os 40 graus em diversas partidas – que tiveram que ser paralisadas. "O Australian Open é realizado num período de muito calor, a média lá chega a quase 40 graus. Não existe período de recuperação adequado para esse nível de temperatura, não há reabilitação correta", afirmou o ortopedista Ciro Veronese, especialista em traumatologia.

Na final do torneio feminino, a romena Simona Halep foi derrotada pela dinamarquesa Caroline Wozniacki, mas para a tenista as consequências do alto calor e da falta de tempo hábil para a recuperação foram piores do que a derrota: após a partida, ela foi hospitalizada com um quadro de desidratação. As condições às quais os tenistas foram expostos durante o Grand Slam levantaram outra discussão no meio, sobre a relação entre esporte e indústria da mídia. Muitos atletas foram a público reclamar do horário das partidas, realizadas no horário de pico do calor australiano para beneficiar as transmissões de TV na Europa.

Em 2014, na Copa do Mundo do Brasil, a discussão já havia sido aberta. A Fifa se negou a modificar os horários das partidas das 13 horas – horário pouco casual para jogos de futebol em países de clima tropical –, já que se fossem mais tarde atrapalhariam as emissoras de televisão detentoras dos direitos de transmissão do Mundial no Hemisfério Leste.

Nos torneios curtos, o pedido por maior tempo de reabilitação após uma partida dificilmente será atendido – já que poderia ferir a agenda das confederações. Porém, os campeonatos de longa duração passam pelos mesmos problemas e há mais chance de soluções.

No ano passado, a Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) assinou um acordo com a CBF para que os atletas tivessem, no mínimo, 66 horas de descanso entre uma partida e outra – o pedido inicial foi de 72 horas, mas o número menor foi acordado por atender ocasiões excepcionais.

"É um prazo bom que foi determinado, pois estamos falando dos principais clubes, que têm condições de utilizar vários jogadores. Então, acho que esse prazo é bom, pode haver um remanejamento. Esse tempo é a média de recuperação após um grande desgaste físico, ainda mais com a aparelhagem da maioria dos grandes clubes. Sei que nem todos têm (estrutura) igual, mas é um período interessante", afirmou Nivaldo Carneiro, presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Paraná.

Porém, mesmo os principais clubes do mundo sofrem com o desgaste de partidas em sequência. O treinador Pep Guardiola, do Manchester City, criticou o calendário do futebol inglês, principalmente no período do Boxing Day – período tradicional no País em que são disputadas várias partidas entre o Natal e o Ano Novo, inclusive nos dias dos feriados. O espanhol afirmou que a maratona iria "matar os jogadores", já que foram disputadas dez partidas no mesmo mês – quando a média fica entre sete e oito.

"Alguns times são submetidos ao calendário mal elaborado e os jogadores fazem jogos intensos. Essa intensidade da partida exige de maneira diferente de um treinamento. A pessoa disputar vários jogos num período curto de tempo, como acontece tanto no Campeonato Brasileiro quanto nas ligas europeias, que têm várias rodadas em períodos curtos de tempo, faz com que essa sobrecarga aja e o estresse físico no atleta seja extenuante e propicie lesões, muitas vezes mais graves", apontou Ciro Veronese.

NBA

No dia 27 de janeiro, o armador Andre Roberson, do Oklahoma City Thunder, sofreu uma ruptura completa do tendão patelar do joelho esquerdo e deve ficar fora de todo o restante da temporada – era um dos destaques da equipe.

"Foi igual àquela que o Ronaldo teve no passado (em 2000, quando atuava pela Inter de Milão). A lesão no tendão patelar acontece porque a região fica adoecida, há um processo de inflamação e isso faz com que o local fique cada vez mais frágil e suscetível à ruptura. Foi o que aconteceu, o tendão arrebentou, faltou impulso para ele na hora de enterrar", afirmou Ciro Veronese. As lesões de ruptura de tendão são causadas, principalmente, pela falta de recuperação física adequada dos atletas.

No último dia 31, mais uma lesão grave na Liga Americana chocou os torcedores, dessa vez do Phoenix Suns. O armador da equipe, Isaiah Canaan, fraturou o tornozelo após aterrissar de uma bandeja. A semelhança entre as duas contusões é, mais uma vez, o calendário apertado. Enquanto o OKC, de Roberson, jogou três partidas em cinco dias, o Suns, de Canaan, disputou quatro jogos em quatro dias.

O calendário da fase regular da NBA é composto por 82 partidas de cada equipe em um período de 180 dias, contabilizando quase uma partida a cada dois dias. Em 2014, jogadores da liga, liderados por LeBron James, do Cleveland Cavaliers, chegaram a pedir menos partidas na fase inicial da disputa, mas não foram atendidos.

Copa

Com a compressão da maioria dos calendários de competições no primeiro semestre e as férias reduzidas dos atletas europeus, a previsão é de desgaste físico maior ainda em ano de Copa do Mundo e, segundo Ciro Veronese, desfalques no Mundial: "O principal problema são as tendinoses, que ocorrem quando os tendões acabam sendo atingidos por essa sobrecarga de partidas. Quanto mais o atleta fica desequilibrado, mais ocorre esse problema, tanto nos tendões quanto nas articulações. Várias seleções perderão atletas nesse primeiro semestre, principalmente por lesões como essas. É um período menor de férias, pouco tempo de reabilitação, terá tudo isso."

É comum que várias seleções percam jogadores importantes em ano de Copa do Mundo. Só na última edição, em 2014, 55 atletas ficaram de fora da lista final de suas seleções por problemas físicos. A seleção alemã, campeã daquele ano, teve sete atletas cortados por lesão, sendo quatro por entorse ou ruptura dos ligamentos do joelho ou do tornozelo. As ausências mais sentidas por contusões ligadas à sobrecarga foram a do alemão Marco Reus (ruptura dos ligamentos do tornozelo) e do colombiano Falcao García (ruptura total dos ligamentos do joelho).

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