Frankfurt - Na escolinha do professor Raymond, não há lugar para piadas. O dever de casa é sagrado e todos conhecem a cartilha de cor. Para enfrentar o Brasil hoje, em Frankfurt, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo, o treinador da França vai repetir seu 4-2-3-1 fortíssimo na marcação, rápido na saída para o ataque e com Zidane dando o toque de genialidade no meio-campo.
Com seu linguajar empolado, fruto de anos de estudos sobre artes cênica, astrologia e esoterismo, o ex-ator de teatro Raymond Domenech às vezes assume o papel de um hilário personagem que marcou o extinto programa humorístico: Rolando Lero. Fala muito e diz pouca coisa. ''Para mim, a França tem de ser lúcida e com uma forte solidez defensiva. Estamos sempre em busca da felicidade coletiva e não há outra meta a não ser 9 de julho.''
Bom para Parreira que o estilo da França não chega a ser grande mistério. São nada menos do que seis homens responsáveis pela marcação do meio-campo para trás. Raymond Domenech é adepto da tese de que o melhor ataque é a defesa.
Além de uma experiente dupla de zaga, formada por Thuram e Gallas, a França tem dois laterais, Sagnol e Abidal, que raramente saem para o apoio. Contra a Espanha, eles guardaram posição os 90 minutos e foram fundamentais para o time anular Raúl, Torres e Villa.
À frente da linha de quatro, dois verdadeiros cães de guarda, Vieira e Makelele. O primeiro, com sua qualidade de passe e boa visão de jogo, costuma ser um trunfo para pegar os adversários de surpresa. Algo que ficou bem nítido nas oitavas-de-final. Vieira deu o passe para o primeiro gol, de Ribery, e marcou o segundo, de cabeça.
Daí por diante é que a França realmente começa a ser um time ofensivo. Com Sagnol e Abidal recuados, o talentoso Ribery, pela direita, e o veloz Malouda, pela esquerda, têm plena liberdade para atacar.
Zinedine Zidane é o aluno exemplar da turma. Gênio solitário num time bem organizado, o camisa 10 joga com total liberdade para se movimentar do meio para frente, mas nem por isso deixa de assumir funções de marcação quando o time está sem a bola. Congestionar o meio-campo para não deixar o adversário jogar é matéria obrigatória na escolinha do professor Raymond.
Na frente, Henry passa 90 minutos à espera de um bom lançamento para arrancar entre os zagueiros de frente para o gol, na sua principal característica. O esquema de Domenech não lhe tem sido muito sedutor até o momento. Em quatro partidas, ele já fez dos gols, mas vive situação bem parecida com a de Ronaldinho Gaúcho: está longe de mostrar na seleção as virtudes que encantam a torcida de seus clubes. E o salário, ó: 28 milhões de euros por ano para o brasileiro e 9,8 milhões de euros para o francês.

Humildade - No reencontro com suas vítimas, os algozes de 1998 não descem das sandálias da humildade nem por decreto. Uma das estrelas da seleção da França, o meio-campo Vieira teceu loas à seleção brasileira, e repetiu o discurso de respeito aos atuais campeões do mundo. Falou do prestígio dos adversários, minimizou quaisquer lembranças da final de oito anos atrás e previu que será uma jornada difícil para os dois times. Mas, perguntado sobre uma eventual decisão por pênaltis, se traiu.
''Não treinamos as cobranças porque não sabemos o que vai acontecer no jogo. Além disso, deve bater quem estiver melhor'', receitou.
Vieira escolheu uma das estrelas brasileiras como principal adversário a ser combatido. Elegeu um conhecido de batalhas no meio-campo nos clássicos que a sua Juventus disputa com o Milan, no Campeonato Italiano: ''Kaká me impressiona pela velocidade de seu jogo e pela ótima técnica. É um jogador muito inteligente e perigoso.'' (Agência O Globo)

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