Técnico da França ironiza Felipão
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domingo, 02 de julho de 2006
Ary Cunha<br> Agência O Globo 
Hameln - Raymond Domenech atirou a primeira pedra. Talvez ainda sob efeito da vitória por 1 a 0 que eliminou o Brasil, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo, o técnico da França se deixou trair ontem pela própria euforia. Perguntado sobre o que conhecia do estilo Luiz Felipe Scolari, com quem fará um duelo nas semifinais entre França e Portugal, quarta-feira, em Munique, Domenech fez pouco caso do pentacampeão. ''Não o conheço muito bem. Ele é campeão do mundo, não é?'', ironizou Domenech, durante a coletiva que concedeu ontem à tarde, em Hameln.
Ao perceber a gafe, o francês adotou um tom mais respeitoso ao falar de Felipão, mas sem grandes elogios. ''Como ele trabalha dentro da concentração, seus métodos de motivar os jogadores, sobre estas coisas não posso falar muito. Não estou aqui para analisar ninguém. Mas tenho muito respeito pelo trabalho que Scolari vem fazendo já há quase quatro anos em Portugal''.
Não bastasse a cutucada em Felipão, Domenech também usou sua língua ferina ao ser perguntado sobre o jogo contra o Brasil. ''O Brasil só é bom quando tem a bola e nós não deixamos que fosse assim. Jogamos com segurança, solidez''.
Perguntado sobre as criticadas opções de Parreira ao longo da partida, o francês se esquivou. ''Cada treinador toma suas decisões, escala o time como quer. Este não é um problema meu''.
O excesso de faltas do time de Scolari na Copa também entrou na pauta. Mas dessa vez o técnico da França preferiu não morder a isca. Até porque seu time não é dos mais santos. A França vai entrar no gramado do moderníssimo estádio de Munique quarta-feira com nada menos do que seis jogadores pendurados, entre eles o craque Zinedine Zidane. Os outros são Vieira, Thuram, Ribery, Sagnol e Saha.
''Não reduzam o jogo de Portugal nessa Copa à violência. Ninguém tem o direito de dizer isso deles. Os portugueses já provaram que são capazes de jogar futebol e é isso que eu espero que aconteça em Munique. É uma equipe que se defende bem, que sabe pressionar o adversário e tem talentos individuais'', analisou o treinador da França.
A possibilidade de perder jogadores importantes na final da Copa do Mundo fez Domenech propor uma mudança nos critérios da Fifa. Para argumentar em causa própria, citou até o exemplo de outro esporte coletivo. ''Acho injusto que o time que permanece na competição acabe sendo mais prejudicado neste sentido do que o que foi eliminado. Isso deveria ser revisto. Não me parece bom que jogadores fiquem fora de uma final de Copa do Mundo. A punição deveria ser outra, como no handebol, em que o atleta advertido fica alguns minutos fora da quadra e depois volta normalmente'', exemplificou.
Pelo menos num ponto Felipão e Domenech concordam: jogando um futebol feio ou bonito, o importante é ganhar. Até porque as duas seleções de maior número de talentos individuais na Copa, Brasil e Argentina, já voltaram para casa. ''A Copa é de quem ganha e ninguém mais. É claro que estamos eufóricos por derrotarmos o Brasil, mas ainda não ganhamos nada. O verdadeiro prazer, a verdadeira felicidade ficará apenas com o time campeão. Quero meu time vencendo'', disse.
Para a França vencer, Domenech sabe que precisa muito do talento de Zidane. Contra Espanha e, principalmente, Brasil, ele desequilibrou. Mas o técnico acha que a genialidade do camisa 10 só sobressai se o resto da equipe estiver bem. ''A qualidade do craque depende de a equipe jogar bem. Quando o time está equilibrado, o talento individual naturalmente aparece. Aí está o Zidane, o grande Zidane'', derreteu-se. ''A França ao longo dos últimos anos sempre se constrói em função dele. Habituou-se a jogar num estilo voltado para ele, mesmo até quando Zidane não está em campo''.
Folga Zidane e seus companheiros tiveram um dia de descanso no castelo de Munchhausen, a oito quilômetros de Hamelin. Hoje de manhã, faz um treino leve e amanhã viaja para Munique. Jogadas, estratégias, tudo já está mais do que ensaiado. O momento agora é de não correr qualquer risco de lesão e garantir uma boa condição física para a equipe nas partidas decisivas.
Quem cutuca Felipão com vara curta tem de estar pronto para tudo, mesmo.


