São Paulo - Os turistas a definem como um dos lugares mais belos do planeta. Para os surfistas, é uma das mecas do esporte que praticam. Normalmente, são essas as duas referências dessa ilha da Polinésia Francesa que, quando se observa em algum mapa colocado em uma parede, tem-se a impressão de que fica no fim do mundo. O Taiti, porém, em breve vai ser lembrado, ao menos pelos brasileiros, por mais um motivo: o futebol. É que a seleção desse território francês estará no País em 2013, para disputar a Copa das Confederações.
A surpreendente seleção taitiana, apenas a 179 no ranking da Fifa com parcos 86 pontos (a líder Espanha tem 1.456), obteve vaga no evento-teste para a Copa do Mundo de 2014 ao conquistar a Copa das Nações da Oceania. Garantiu a taça com a vitória por 1 a 0 sobre a Nova Caledônia, que coroou campanha irrepreensível: 5 vitórias em 5 jogos, 20 gols marcados, apenas 4 sofridos.
Um feito e tanto para uma equipe amadora no espírito e na prática - seus jogadores recebem basicamente ajuda de custo e ganham a vida como pescadores, trabalhadores braçais, sapateiros e alguns também defendem a seleção de futebol de areia -, que compensa a falta de intimidade com a bola e com as táticas com muita vontade e correria.
Claro que o (baixíssimo) nível dos adversários é igual. Além disso, quem fez o serviço de tirar do caminho a favoritíssima, quando se trata de Oceania, Nova Zelândia na semifinal da Copa das Nações foi a Nova Caledônia. No entanto, não dá para tirar os méritos, a alegria e o direito de sonhar dos taitianos.
''É incrível! Vamos ao Brasil para a Copa das Confederações! O mundo vai olhar para nós. Isso é magnífico. Esses garotos merecem'', disse, chorando, o técnico taitiano, Eddy Etaeta, ainda no gramado do Estádio Lawson Tama, nas Ilhas Salomão, onde ocorreu a conquista do título.
Aliás, para chamar o Lawson Tama de estádio é preciso dose generosa de boa vontade, além de se gostar do futebol em estado puro. Os torcedores se ajeitam num barranco (gramado), versão local das arquibancadas. Os vips têm direito a cadeiras colocadas em espaço coberto, mas aberto. O banco de reservas é composto por cadeiras de plástico, que ficam soltas na lateral do campo. Ah, e as traves são removíveis, como nos CTs de clubes brasileiros. Os estádios do Taiti são praticamente iguais. A diferença é que alguns não têm barranco e os torcedores ficam espalhados pela cerca que faz as vezes de alambrado.
Trabalho de base
Mas, mesmo num futebol tão rudimentar, o do Taiti passou por um investimento na base para melhorar. Desde o ano 2000, a Federação Taitiana de Futebol tentava fazer o nível aumentar. Deu algumas cabeçadas até decidir, em 2007, apostar numa nova geração. Para isso, chamou o técnico francês Lionel Charbonnier, que garimpou em clubes e nas peladas da ilha garotada promissora, levada para disputar o Mundial Sub-20 em 2009, no Egito - foi campeão da Oceania no ano anterior.
O time tomou três pauladas - perdeu por 8 a 0 para Espanha e Venezuela e por 5 a 0 para a Nigéria. Mas valeu. ''Mostrei a eles a diferença entre um surfista e um jogador de futebol'', disse Chardonnier. ''Jogamos contra grandes nomes do futebol mundial e o nível deles era muito mais elevado do que o nosso. Foi uma experiência valiosa. Quando voltamos (ao Taiti), senti que estávamos mais fortes como jogadores e como pessoas'', avaliou o meia Alvin Tehau.
Tehau e outros 5 jogadores do time de 2009 foram titulares na vitória sobre a Nova Caledônia. O título da Copa das Nações da Oceania é a conquista mais importante do futebol da ilha que tem no rúgbi e na canoagem polinésia os esportes preferidos de seus cerca de 178 mil habitantes - o surfe é quase uma religião -, mas apenas o pontapé inicial, acreditam os taitianos. ''Nós provavelmente nunca faremos parte da elite do futebol'', reconhece Pure Nena, diretor administrativo da federação local. ''Mas não é porque somos pequenos que não devemos ter ambições.''

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