‘‘Herói? Não. Sou apenas um cara iluminado, abençoado.’’ Taffarel não quer ficar com os louros da vitória sobre a Holanda, que classificou a Seleção Brasileira para a decisão da Copa do Mundo, apesar de ter defendido duas cobranças na disputa por pênaltis. O goleiro viveu um dia de ídolo ontem, mas procurou seguir o exemplo de seu companheiro de orações, César Sampaio, para não se inebriar com os elogios. ‘‘A nossa profissão, principalmente a de goleiro, é ingrata’’, afirmou. ‘‘O César Sampaio fez dois gols contra o Chile, mas não mudou nada: continuou a pessoa simples de sempre.’’.
Segundo Taffarel, o amigo dirigiu-se a ele logo assim que terminou a prorrogação do jogo de terça-feira e disse: ‘‘Hoje é o teu dia’’. Quando defendeu a derradeira cobrança, de Ronald de Boer, Taffarel repetiu o gesto que Sampaio faz na comemoração de seus gols: ajoelhou-se, levantou os braços para o céu e disse: ‘‘Obrigado, meu pai!’’. Depois, foi sufocado pelo abraço dos companheiros. ‘‘Eu quis dividir o orgulho e a alegria que estava sentindo com os colegas.’’
Taffarel preferiu não responder às pessoas que o criticam insistentemente. ‘‘Eu não quero usar a Copa do Mundo para dar a volta por cima porque eu nunca estive por baixo.’’ O goleiro brasileiro não se considera um especialista em pênaltis. ‘‘Não tenho uma técnica especial: é mais intuição e a benção de Deus mesmo.’’ Taffarel disse que não agarrava um pênalti desde a decisão da Copa de 1994, contra a Itália, nos EUA.
Nos treinos da Seleção, os reservas Dida e Carlos Germano sempre defendem mais cobranças do que ele. ‘‘O Zico veio brincar comigo antes do jogo com a Holanda e disse que eu precisava melhorar o meu percentual de defesas e eu respondi que defenderia na hora certa: está aí.’’
É verdade que Taffarel também contou com a ajuda do treinador de goleiros Wendell, que havia observado as cobranças de pênaltis dos holandeses na última Eurocopa. ‘‘Depois da prorrogação, enquanto o Zagallo falava com os outros jogadores, o Wendell conversava comigo, passando tranquilidade’’, contou.
Mas, para provar que decisão por pênaltis é com ele mesmo, Taffarel garante ter ficado muito mais nervoso antes, durante a prorrogação com morte súbita. ‘‘Nem pensei na hipótese de o Brasil fazer um gol e definir a partida: torci para a prorrogação acabar logo e ir para os pênaltis’’, afirmou o goleiro, que não havia visto as suas defesas pela TV até voltar à concentração, no início da noite de ontem.
Para Taffarel, a vitória não foi mais emocionante do que a decisão de quatro anos atrás, nos EUA. ‘‘Para sentir uma coisa igual ainda falta um jogo, mas foi uma vitória incrível, que mexeu com todos nós’’, afirmou. Segundo o goleiro, os jogadores fizeram o trajeto de volta, após a partida, cantando no avião e, depois, batucando no ônibus. ‘‘Temos de aproveitar esse entusiasmo, essa alegria e partir para o título: nossa inspiração são as imagens da torcida, festejando, no Brasil’’.

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