A Austrália começou o projeto olímpico e paraolímpico após aos Jogos de Montreal em 1976, quando o país saiu do Canadá sem nenhuma medalha. Foram 24 anos de preparação e deu no que deu. Nos Jogos Olímpicos, os australianos fizeram bonito e conquistaram o quarto lugar geral, nos Paraolímpicos eles mandam, são líderes campeões dos Jogos. Tudo fruto de um trabalho sério e de políticas públicas que incentivaram o esporte para todos. Ao chegar em Sydney, o visitante percebe que há algo de novo no ar. Não apenas pela distância ou pela atmosfera que nos faz sentir que realmente se está do outro lado do mundo. Os moradores contam que a cidade recebeu um ‘‘banho de loja’’ para receber os atletas, paratletas e turistas que vieram acompanhar os maiores jogos da história do esporte.
Porém, nem tudo teve que ser remodelado. A preocupação com o bem estar do deficiente em Sydney é algo tão latente quanto as belezas que a cidade apresenta. Muito antes de pensar em se candidatar a ser sede de uma Olimpíada, os australianos tratavam os deficientes com igualdade verdadeira. Todos os pontos turísticos da cidade, são acessíveis para as visitas de portadores de deficiência. Até mesmo nas pontes – Sydney tem pelo menos 10 belíssimas pontes – ou na praia, o direito de ir e vir é respeitado na sua totalidade. Apenas alguns prédios muito antigos ainda contam com barreiras que inviabilizam o acesso dos deficientes.
Não há buracos na calçada e todas têm o mesmo padrão. Ao morador não é permitido construir qualquer tipo de calçada, todas seguem o mesmo padrão. Nas ruas as guias rebaixadas podem ser vistas em todas as esquinas. Os sinais sonoros e luminosos em todas as ruas também facilitam a vida dos portadores de deficiência na hora de atravessar a rua. Ônibus, trens, vans e táxis contam com rampas especiais e até os barcos servem os deficientes sem maiores problemas.
Tantas facilidades deixaram atletas, jornalistas e dirigentes brasileiros impressionados com a cidade. O presidente da Associação Brasileira de Desporto em Cadeiras de Rodas, Irajá de Brito Vaz, que já rodou o mundo, confessa que se encantou com Sydney. ‘‘Esta cidade é realmente especial’’, diz. ‘‘Os locais são acessíveis para todos e a sensibilidade com os portadores de deficiência é algo possível de enxergar em várias situações’’, elogia. Ele cita Curitiba como uma das poucas metrópoles brasileiras que mostra certa preocupação com a locomoção das pessoas portadoras de deficiência.
A medalhista de ouro nos 200 e 400 metros, Ádria Santos, disse que caminhou tranquilamente pelas ruas de Sydney. Segundo ela, os sinais sonoros em todas as esquinas facilitam a todos. ‘‘Há informações das ruas em todas as esquinas tudo escrito em braile’’, conta ela. A mesma sensação de conforto teve Roseane Santos, a Rosinha, detentora de dois recordes mundiais e duas medalhas de ouro nesta Paraolimpíada. ‘‘A precupação com os deficientes faz diferença na hora de sair de casa’’, conta.
O coordenador-geral do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Vital Severino Neto, 50 anos, também percebeu o quanto Sydney é preocupada com as pessoas portadoras de deficiências. ‘‘A ausência de barreiras arquitetônicas facilitam a vida não apenas dos deficientes como também para as crianças e idosos’’, constata ele.
O cadeirante Marcos Aurélio Oliveira, o Kolinos, é membro do grupo de dança sobre cadeiras de rodas que se apresenta em Sydney durante as Paraolimpíadas. Ele nunca havia saído do Brasil e ficou impressionado com tamanha facilidade encontrada na cidade. ‘‘Parece um sonho, as pessoas te respeitam, os locais são acessíveis e até mesmo nas praias mais longes há como chegar pois os trens são adaptados e as praias têm calçadas’’, conta o carioca que nunca pôde conhecer de perto um dos maiores cartões postais de sua cidade, o Cristo Redentor, por causa da falta de elevadores apropriados para deficientes.
A cadeirante Viviane, que também dança no grupo brasileiro, disse que gostou do que viu em Sydney. ‘‘Tudo é facilitado para gente, desde os telefones, passando pelos prédios públicos, sgoppings e lojas’’, conta. ‘‘Infelizmente no Brasil temos que passar por tantas dificuldades para sair de casa’’, lamenta.