São Paulo - Como a gente faz para ter esses "gominhos" na barriga? Essa foi a pergunta que Zé Roberto ouviu de seus colegas depois de ter tirado a camisa em sua apresentação oficial no Grêmio em junho do ano passado. Os curiosos, todos mais jovens, ficaram sabendo que são necessários 500 abdominais diários, além de não beber e não fumar. Se começarem hoje, poderão chegar ao estágio do Super Zé que, aos 38 anos, tem um porcentual de gordura de 7%, o mesmo índice da juventude. "Pratico esses exercícios há muito tempo, desde que jogava na Alemanha. Chego antes dos treinos e sempre pratico. Alguns também estão me seguindo".
No caso de Zé, quem vê cara (e os gominhos) vê o coração. A exemplo do abdômen, o camisa 10 do Grêmio também cuida do espírito. Foi assim desde a infância sofrida na Vila Ramos, na zona leste de São Paulo. A casa de Zé Roberto e seus cinco irmãos era a única que não tinha portão e as janelas tinham remendos com pedaços de madeira. O telhado era um zagueiro que não dava conta das habilidosas pingueiras.
De dia, os meninos catavam lata, cobre e papelão para vender no ferro-velho e, com a renda, compravam bolachas. O almoço era arroz com ovo, o máximo que a dona Maria Andrezina da Silva conseguia colocar na mesa com os dois empregos. Uma vez, um dos irmãos queimou a boca ao tentar comer gengibre pensando que pudesse substituir uma batata. O pai? Bebia. E, quando bebia, ficava violento.
O próprio meia reconhece que foi por milagre que não virou assaltante, viciado ou traficante. Era o futebol que o fazia esquecer da vida. Fogos de artifício imaginários explodiam na cabeça do menino quando um dos amigos o convidava para ir para casa. Sabia que conseguiria filar
a boia.

Sem mistura
Dona Andrezina começou a ouvir as pessoas falando que Zé jogava bem e resolveu fazer o gosto do menino. Tirou o dinheiro da mistura para pagar a passagem de dois ônibus e metrô para o menino treinar no Pequeninos do Jockey, clube amador que alcançou grande prestígio no futebol europeu graças aos títulos nas categorias juvenis na década de 90 e que tenta entrar no Guiness Book (Livro dos Recordes) por causa dos 220 troféus. "Hoje ainda me emociono com os sonhos de algumas mães", contou Zé.
A medida da importância de Zé Roberto para o Pequeninos está na saudação do fundador e presidente José Guimarães Junior. Antes de mais nada, ele manda. "O Zé faz aniversário no dia 6 de julho", disse o septuagenário, com a memória nos trinques. E a língua também. "Ele é um dos orgulhos da minha vida".
Com o dinheiro das rifas que a mãe organizava e dos empréstimos a perder de vista feito com familiares, o menino treinava, mas sabia que o futebol estava na corda bamba. Aos 16 anos, desistiu e foi cortador de carne e office boy. A mãe foi mais insistente que ele e arrumou duas peneiras, uma delas na Portuguesa. E o resto já está na enciclopédia do futebol.
Participou do melhor time da história do clube, vice-campeão brasileiro em 1996 e está na seleção de todos os tempos escalada pela própria Portuguesa. Em 1997, voou para a Europa e jogou oito anos na Alemanha, no Bayer Leverkusen e no Bayern de Munique. Virou ídolo. Em 2007, voltou ao Brasil e foi campeão paulista com o Santos. Resistiu aos apelos da diretoria para renovar o contrato e foi para o Hamburgo. É o segundo estrangeiro que mais atuou na Bundesliga (o primeiro é o peruano Claudio Pizarro). "Muitos veículos de comunicação pedem entrevistas. Na semana passada, pediram um depoimento sobre os 50 anos do Campeonato Alemão pela importância que eu represento para essa história. Fico orgulhoso".
Depois de ter sido reserva de Roberto Carlos na Copa de 1998, foi protagonista em 2006 como o único brasileiro da seleção daquele Mundial, feita pela Fifa. Zé Roberto confessa que não fica na expectativa pelas convocações da seleção e só pensa jogo a jogo.

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