Rio - A conquista de 141 medalhas no Pan de Guadalajara foi exaltada pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, para quem o desempenho dos atletas na competição no México demonstra evolução permanente e consolidada do esporte no Brasil. O dirigente se apega a números, convenientemente usados para sugerir uma evolução que esbarra, no entanto, em evidências e dados históricos. Desde a primeira edição dos Jogos Pan-Americanos, em 1951, o Brasil se vê sempre diante de um dilema: sua posição despenca no quadro de medalhas das olimpíadas, realizadas um ano após cada disputa das Américas.
A queda é brusca e não mudou nessa relação Pan/Olimpíada em quase 60 anos. O Brasil, em geral, obtém nos Jogos Olímpicos cerca de 10% do total de medalhas conquistadas nos Jogos Pan-Americanos. Isso, na verdade, já foi assimilado pela cúpula do COB. O superintendente de esportes da entidade, Marcus Vinícius Freire, deixou clara qual a expectativa da entidade para os Jogos de Londres, em 2012: o COB vai se dar por satisfeito se o Brasil ganhar cerca de 15 medalhas. Ou seja, repetir o número de Pequim, em 2008.
O presidente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), Ary Graça, também arrisca o palpite de que na próxima Olimpíada os atletas do Brasil conseguirão ''entre 13 e 15 medalhas''. ''Não deve ser diferente disso'', comentou o dirigente.
Na Olimpíada de 1952, o Brasil subiu ao pódio três vezes. Um ano antes, no Pan, conquistou 32 medalhas. A distorção mais gritante ocorreu na década de 60. No Pan de 1963, disputado pela primeira vez no Brasil (em São Paulo), as equipes nacionais obtiveram 52 medalhas. Na Olimpíada de 1964, em Tóquio, apenas o basquete masculino voltou para casa com uma premiação. No caso, conseguiu o bronze.
Nos últimos anos, o Brasil passou a ocupar papel mais importante no esporte entre os países das Américas Central, do Norte e do Sul. Isso se reflete em parte nos Jogos Pan-Americanos. Mas não indica ou aponta um futuro promissor. O ideal de uma potência olímpica parece cada vez mais um exercício de utopia.
No Pan de Guadalajara, o Brasil ficou muito atrás dos Estados Unidos, que levaram para o México em grande maioria atletas reservas - como tradicionalmente acontece, perdeu também para Cuba.
Os destaques do País são conhecidos do público e as apostas vão se concentrar neles: o nadador Cesar Cielo, o ginasta Diego Hypólito, a saltadora Maurren Maggi, as duplas masculina e feminina de vôlei de praia, além do vôlei de quadra. Podem também figurar como fortes candidatos a trazer medalhas para o Brasil em 2012 alguns poucos atletas de judô, vela e hipismo.
Comparar resultados de Pan e Olimpíada entre décadas requer pelo menos um cuidado. A quantidade de medalhas oferecidas aumentou muito desde os anos 50, nas duas competições. No primeiro Pan, por exemplo, estavam em disputa 419. No evento em Guadalajara, esse número alcançou 1.177.
O Brasil confirmou no México sua superioridade sobre o Canadá, adversário também superado no Pan de 2007, no Rio. É um detalhe que alimenta estatísticas e ilustra o discurso otimista de Carlos Arthur Nuzman.
Deixar para trás o Canadá nos Jogos Pan-Americanos não significa muita coisa se o País não estender suas conquistas para além das seis ou sete modalidades com alguma representatividade em Olimpíada.
Em Londres, 26 esportes vão distribuir medalhas. Na maioria deles, o Brasil nem sequer poderá sonhar com pódio.

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