Só a SAL poderá pagar as dívidas
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sábado, 25 de outubro de 1997
Flávio Campos 
Cesar AugustoPagani: Falta de um forte corpo associativo dificultou tudo Dorival Pagani, 51 anos, foi presidente do Londrina durante mais de cinco anos. Assumiu interinamente em 89, e depois foi eleito em duas oportunidades, tornando-se um dos mais vitoriosos presidentes da história do clube. Com ele, o Tubarão foi campeão estadual de profissionais e de juniores, conseguiu por comodato a cessão do Estádio Vitorino Gonçalves Dias e da sede administrativa e realizou a maior transação do futebol paranaense: a venda de Elber ao Milan, da Itália, por um milhão de dólares. Com amplo conhecimento, ele responde hoje às perguntas da FOLHA sobre a dramática situação atual do clube.
FOLHA - O Londrina está morrendo?
PAGANI - Não se pode afirmar que o clube esteja morrendo, porque ele vem passando por dificuldades há 20 anos e até hoje não morreu. Mas é uma situação difícil. Só com um quadro associativo forte poderia haver equilíbrio. Entretanto, milhares de títulos remidos foram vendidos, acabando com a maior fonte de arrecadação do clube. O crescimento do Grêmio Londrinense também ocupou um bom espaço que antes pertencia ao Londrina. Mas uma coisa é certa: se ficarmos discutindo o passado, maior será o risco do clube morrer.
FOLHA - O que é que levou o clube a esta situação?
PAGANI - Justamente a falta de um corpo associativo. O Londrina passa a maior parte do ano sem arrecadação. Só melhora um pouco no verão. E hoje o clube não tem mais do que 300 ou 400 associados pagando. A verdade é que um clube popular manteve durante 40 anos um time de futebol profissional para uma cidade grande. Tem mesmo que estar quebrado. Chegou até agora por milagre, graças aos muitos abnegados que passaram durante todos estes anos.
FOLHA - O Londrina foi roubado por alguns dirigentes?
PAGANI - Só posso afirmar que alguém roubou o Londrina, quando eu tiver prova disto. E se alguém roubou mesmo, quem teria que denunciar isto é cada Conselho Deliberativo e cada Conselho Fiscal que respondeu pela vida do clube. São estes conselheiros que têm que dizer se houve alguma irregularidade. Se algo for descoberto agora, eles terão que responder por omissão. Se fizerem uma auditoria, ela terá que ter começo, meio e fim. Terá que pegar a ponta do novelo, em 1956, e vir até agora. Não adianta pegar de cinco ou 10 anos para cá. Vamos levantar tudo, ver quantos títulos foram vendidos em todos estes anos, e se apenas 25% deste dinheiro foi aplicado no futebol, como mandam os estatutos.
FOLHA - A SAL ajudou ou atrapalhou?
PAGANI - A SAL é necessária. Fui um dos seus fundadores. O clube vai ter que acertar a sua vida, enquanto a SAL paralelamente toca o futebol. Mas o grupo da SAL vai ter que aumentar. É muito trabalho para apenas quatro ou cinco pessoas.
FOLHA - É justo que a SAL pague as dívidas anteriores do clube?
PAGANI - Ela não deveria sofrer penhores em cima do que arrecada. Não pode ser responsabilizada. Mas podem estar certos de que as dívidas do Londrina só serão pagas, se a SAL continuar tocando o futebol. Este acerto que está sendo proposto agora vem de encontro ao que venho sugerindo há muito tempo. Não há outra forma, senão aplicar um percentual (30%) de tudo o que a SAL arrecadar como patrocínio para pagamento das velhas contas.
FOLHA - Até hoje tem gente que contesta os valores do negócio que determinou a venda de Elber ao Milan. Por que esta polêmica?
PAGANI - É que tem gente que tem memória curta. A FOLHA noticiou todos os detalhes do negócio. Acho que o assunto chamou a atenção, porque conseguimos fazer um grande negócio. Dois meses, o famoso Evair havia sido vendido por US$ 1,4 milhão. E conseguimos vender um garoto por US$ 1 milhão. Ele foi vendido em agosto de 91. Sobraram para o clube 397 mil dólares, porque pagamos 220 mil dólares de comissões a empresários, CBF, FPF e ao próprio Elber. Gastamos US$ 120 mil na reforma do VGD; US$ 70 mil na sede administrativa; e compramos cinco jogadores, entre os quais Marcio Alcântara, João Neves, Joilton e Celso Reis. Com eles fomos campeões estaduais no ano seguinte. Dizem que o Milan noticiou que havia comprado Elber por US$ 1,7 milhão, mas é que na Europa eles incluem no total do negócio o valor do contrato feito com o jogador que estão contratando.
FOLHA - O senhor voltaria a dirigir o Londrina?
PAGANI - Só voltaria num regime de futebol-empresa. Em 92 fui até ameaçado por telefonemas anônimos, porque não queria continuar na presidência. O envolvimento na época de eleição do clube é muito grande. Depois, todos desaparecem e os eleitos ficam sozinhos segurando a barra. E o que é ior: o Londrina tem 400 mil donos. Todo mundo na cidade manda no clube.
FOLHA - Se a SAL parar, quem vai tocar o futebol da cidade?
PAGANI - Com todo esse barulho, quem vai querer pegar? Diante de tantas acusações contra ex-presidentes do clube, vai ser difícil encontrar um bom candidato para a eleição de dezembro próximo.
FOLHA - E o que fazer para tirar o Londrina deste sufoco?
PAGANI - Primeiro é preciso saber de quanto é a dívida total do Londrina. Ninguém sabe ao certo. Sem esse dado é impossível traçar qualquer plano.


