Sheriff é novidade da Champions e tido como ferramenta de luta separatista


ALEX SABINO
ALEX SABINO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ferramenta política de seu dono, o Futebol Clube Sheriff Tiraspol será o primeiro clube na fase de grupos da Champions League a representar a Transnístria, um país que, oficialmente, não existe. A equipe atua na liga da Moldova, nação que também jamais teve um time neste estágio do torneio europeu.

Nesta quarta-feira (15), o Sheriff enfrenta o Shakhtar Donetsk (UCR), às 13h45 (de Brasília). Na mesma chave estão Real Madrid (ESP) e Internazionale (ITA).

"Este time representa um enclave separatista onde corrupção, contrabando e acordos econômicos escusos são comuns, o que afeta diretamente o orçamento e os interesses da República da Moldova. A vaga na Champions League vai beneficiar apenas o proprietário do clube e ninguém mais", afirma o jornalista moldavo Cristian Jardan.

A federação do país não pensa da mesma forma. Quando o Sheriff eliminou o Dínamo de Kiev e se classificou para a inédita fase de grupos, o site da entidade comemorou o feito que chamou de histórico.

Dirigentes esportivos e políticos da Moldova também se dividem. Uma parte vê a importância do feito para o futebol nacional. Outros, como Jardan, enxergam como ferramenta para servir a uma política separatista.

Tiraspol, cidade do Sheriff, é a capital de Transnístria, como é conhecida a República Moldava Pridnestróvia. O estado ocupa faixa de terra entre o rio Dniester e a fronteira com a Ucrânia. Pelos desejos de independência da região, o governo da Moldova o reconhece como um território autônomo com status legal diferenciado.

Fundado em 1997, o FC Sheriff logo se estabeleceu como a principal força do futebol local. Tem 19 títulos nacionais, dez deles em anos consecutivos. O desejo declarado pelos dirigentes, há uma década, era atingir a fase de grupos da Champions. Conseguiu neste ano, após passar nas fases classificatórias por Teuta (Albania), Alashkert (Armênia), Estrela Vermelha (Sérvia) e Dínamo Zagreb.

O principal ponto de polêmica envolvendo o clube é o empresário Viktor Gushan, um dos seus fundadores. Ex-integrante das forças especiais do exército na antiga União Soviética (ao lado de Ilya Kamaly, outro responsável pela criação da equipe), ele é uma das figuras mais influentes de Transnístria, apoiador das causas separatistas.

O FC Sheriff é parte do segundo maior conglomerado empresarial da região, que também tem cadeia de supermercado, canal de TV, postos de gasolina, construtora, concessionária de veículos de luxo, duas fábricas de pães e a principal rede de telefonia celular do território.

Gusan possui cidadania ucraniana e é dono de várias residências de luxo no país vizinho. Uma delas foi alvo de investigação por construção irregular. Os principais laços da região são com a Rússia. O governo de Vladimir Putin fornece gás natural e paga as pensões de aposentados da Transnístria. Tropas do exército russo estão estacionadas na região para garantir seu status autônomo.

Antigo território soviético, a Moldova declarou independência em 1991.

"O FC Sheriff não tem nada a ver com política. É um clube de futebol apenas", afirma Gusan.

Neste ano, o grupo empresarial do qual a equipe faz parte foi acusado de fraude nas eleições parlamentares da Moldova. Ofereceu US$ 25 para quem fosse votar em um pleito em que a participação dos cidadãos era opcional.

Apoio ao governo do território também traz benefícios econômicos. As empresas de Gusan receberam redução em taxas de importação.

Na questão orçamentária, para o FC Sheriff é um grande negócio a classificação para a fase de grupos da Champions. Garante o recebimento de pelo menos US$ 19 milhões (cerca de R$ 100 milhões) em direitos de transmissão. O número não engloba valores de patrocínio e venda de ingressos para as partidas em casa, como será contra o Shakhtar Donetsk.

Todo o elenco do Sheriff está avaliado em US$ 15 milhões (cerca de R$ 80 milhões). O do Real Madrid, rival de grupo, vale US$ 800 milhões (R$ 4,2 bilhões).

"É um conto de fadas e também uma oportunidade. Todo mundo assiste aos jogos da Champions League. Para o clube e para nós é um momento muito especial", afirma o atacante Adama Traoré, nascido no Mali, e autor de nove gols em 16 jogos da liga de Moldova até agora.

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