Sem clube, lateral vira metalúrgico
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Thiago Mossini <br> Reportagem Local 
Se jogar a Liga dos Campeões da Europa e a Taça Libertadores não são suficientes para manter um jogador empregado, como foi o caso do zagueiro André Galiassi, mostrado ontem, na FOLHA, imagina quando o jogador está iniciando a carreira ou então está no final dela e sem ter passado por um grande clube. No mercado competitivo da bola, onde a sorte muitas vezes fala mais alto, fica ainda mais difícil. A série Desempregados FC mostra hoje, em seu último capítulo, esses dois extremos: as histórias dos laterais Élvis, que aos 21 anos já viveu meses sem trabalho, e Daniel Marques, 34, que rodou o interior por muito tempo e há mais de um ano está longe dos gramados por falta de clube.
Quem acompanhou o futebol paranaense na última década tem obrigação de conhecer Daniel Marques. O jogador rodou por vários clubes do estado, sempre com destaque. Mas desde o final do Paranaense de 2011 não aparece nas escalações. O currículo não garantiu emprego ao lateral.
O último clube em que Daniel Marques atuou foi o Roma. Com o fim da participação da equipe apucaranense no Estadual de 2011, o contrato dele também chegou ao final. O jogador contou que ainda foi sondado para disputar a Segundona do ano passado, mas esbarrou em um inimigo cada vez mais comum na vida dos jogadores mais experientes: os pacotes de atletas oferecidos por empresários sem custos para os clubes.
''Você tem um salário de R$ 4, R$ 5 mil e vem um empresário e oferece um pacote de jogadores a custo zero ou então pagando uma parte do salário. O clube leva três pelo preço de um ou a custo zero, mais novos, mas a qualidade não é a mesma'', afirmou o jogador.
Sem fechar com nenhum clube da Segundona do Paraná, Daniel ainda recusou duas propostas, uma do Mato Grosso e outra de Rondônia. O motivo foram a distância, o valor baixo oferecido de vencimentos e a falta de visibilidade. ''Jogando por lá eu ficaria mais esquecido do que se ficasse parado aqui'', comparou.
Foram três meses correndo atrás de um time. Casado e com dois filhos, Daniel Marques viu a falta de dinheiro falar mais alto e foi procurar trabalho. ''Passei apertado e por isso tive que ir trabalhar. Se fosse ficar esperando alguma coisa...'', contou. ''Fiquei três meses e meio parado, meio deslocado do mundo'', completou o funcionário do centro de usinagem da metalúrgica Molas Fama, de Apucarana.
Na empresa, que mantém um time amador, ele pode treinar e manter a forma, além de ser um dos destaques da equipe nos campeonatos na região. ''Tem academia, campo. Vou jogando os campeonatos e mantendo a forma física para o caso de aparecer alguma coisa'', afirmou o jogador, que conta com o apoio dos patrões para não desistir de vez da carreira. Eles permitem que o lateral saia da empresa para testes ou mesmo acertar com uma equipe com a garantia de que caso o negócio não dê certo, tenha o emprego de volta.
Daniel Marques contou que o desemprego no futebol faz o jogador sofrer muito, não só pela falta de dinheiro, mas psicologicamente também. ''Parece que te esqueceram. Que o que você fez até então não valeu nada. Preferem jogadores mais novos, mais baratos. Quando você para porque tem uma opinião formada é uma coisa. Agora, quando para porque precisa sustentar a família, você fica sem chão'', desabafou.
Foi na família que ele encontrou o apoio necessário para continuar tentando. ''Tive muito apoio da família e de alguns amigos de verdade, que são poucos. Nestas horas que você vê quem realmente é amigo''.
Mesmo assim, ele segue tentando, e não pensa em parar. Em 2013, sonha em ver seu nome novamente nas escalações dos jogos do Campeonato Paranaense. ''Claro que oito meses parado é um empecilho, mas se eu pegar uma pré-temporada desde o início, não tem porque não dar certo''.


