Sem acordo, os dirigentes levam a crise do Tubarão para a praia
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quinta-feira, 31 de dezembro de 1998
Nelson Cilo 
Às vésperas de começar mais uma temporada, o Londrina Esporte Clube continua sem rumo. O mais novo complicador são as dificuldades que impedem o rompimento imediato do contrato que, em agosto de 96, terceirizou o Departamento de Futebol do clube à Sociedade Amigos do Londrina (SAL). Um acerto de bastidores, no final do primeiro semestre, tirou o grupo temporariamente de cena para que outros dirigentes pudessem tocar o time na Série B do Brasileiro.
Agora, porém, a SAL poderia legalmente retomar o poder - a terceirização vale até o ano 2000 - mas o presidente do Conselho Deliberativo, Antonio Amaral, tenta desfazer o vínculo.
O futuro incerto ameaça o time com relação a compromissos logo em janeiro. O Londrina tem de enfrentar o Atlético, dia 24, em Curitiba, no jogo de volta pelas semifinais da Copa Paraná (houve empate de 3 a 3 no VGD). O impasse ameaça também a participação do clube na segunda divisão paranaense, que começa no final de fevereiro. O Londrina foi rebaixado no campeonato deste ano.
O presidente da SAL, Marcos Alexandre Domingues, cobra o ressarcimento do dinheiro investido - no total, cerca de R$ 950 mil - mas teria reduzido a exigência. Ele teria retirado R$ 260 mil do bolso e Fábio Scaff, outro integrante da SAL, mais R$ 150 mil. A soma que ambos gastaram alcançaria R$ 410 mil.
Numa reunião que invadiu a madrugada de ontem - a terceira, desde sábado, entre integrantes dos dois grupos - Amaral exigiu provas concretas dos gastos. Segundo ele, o diretor-jurídico da SAL, Mauro Viotto, prometeu detalhar os valores, mas pediu que o prazo fosse esticado até a próxima quarta-feira. Amaral contou, porém, que a própria SAL reconheceu a impossibilidade de comprovar a diferença que existe entre os R$ 410 mil e os R$ 950 mil. Jamais duvidaria da idoneidade deles (da SAL), mas o Londrina não é meu. Se eu pagasse tudo, os conselheiros poderiam me destituir ou até me processar criminalmente, diz o presidente do Conselho Deliberativo.
Na versão de Amaral, o acerto entre ele e Scaff parece mais tranquilo. Em troca dos R$ 150 mil, bastaria o Londrina ceder o passe do jovem volante Paulo Sérgio. Marcos Alexandre também concordaria em receber a mesma moeda, mas queria, de uma só tacada, todos os atletas dos juniores pela dívida completa da SAL. Neste caso, ocorreria o desconto da parte dos gastos não documentada. É preciso, porém, que Viotto, procurador de Marcos Alexandre, apresente a lista de gastos até quarta-feira, esclarece Amaral.
Ontem, Viotto e Scaff viajaram para Camboriú, litoral catarinense. Neste final de semana, Amaral pretende seguir o mesmo caminho para encontrá-los. Vou até lá pra ver se resolvo tudo.
Enquanto isso, existe um ponto que intriga o coordenador-geral do Londrina, Célio Guergoletto: os critérios de uma terceirização que exime a SAL de eventuais prejuízos. Se você arrenda uma empresa, é lógico que estará sujeito a lucros e perdas. Se você perdeu, como é que vai cobrar de quem arrendou o negócio? Portanto, não entendo como é que a SAL pede a devolução daquilo que teria gasto no Londrina, reagiu Guergoletto.
Amaral antecipa o que pode acontecer, caso não haja uma solução pacífica na quarta-feira. O primeiro passo, esclarece, seria entregar imediatamente o clube à SAL, como seria de direito. Mesmo assim, Amaral tentaria, na Justiça, uma liminar que afastasse a SAL do poder, sob o argumento de que o grupo não teria atingido as finalidades a que se propunha ao assumir a terceirização. Em seguida, iríamos nomear a nova diretoria, explicou Amaral. Tudo passaria, segundo ele, pelo crivo do Conselho Deliberativo, que seria convocado na semana que vem.
Guergoletto, menos diplomático que Amaral, parte direto e sem disfarce para o ataque. Não coloco em dúvida a honestidade deles (da SAL), mas essa é uma negociação que, no mínimo, me parece muito estranha. É simples: se eles puseram dinheiro lá, é só mostrar os comprovantes. Mas, se falam em levar todos os juniores do Londrina, nosso único patrimônio, aí vamos plantar batatas no Café e verduras no VGD. É melhor parar e fechar tudo de uma vez, criticou Guergoletto, que, a exemplo de Amaral, também vai para Camboriú. Levo minha família e vou jogar meu futebolzinho na praia. Já perdi muitas madrugadas. Estou meio cansado. Chega de tanta encrenca.
Marcos Alexandre nega que a SAL solicitou a prorrogação do prazo para comprovar a dívida. Não é verdade. Na quarta-feira, voltaremos a conversar com apenas duas pessoas: o Amaral e o Zé Café (presidente do Londrina). Mas nunca pra mostrar lista alguma. Não vamos explicar nada ao senhor Guergoletto, que só quer criar intrigas políticas. Ele era o vice da SAL e abandonou o barco. Portanto, ele sabe como é que as coisas funcionam.


