Buenos Aires, 01 (AE) - Manhã em Buenos Aires. Jogadores que valem perto de US$ 300 milhões estão sentados há 45 minutos esperando nas escadas do hall do Hotel Sheraton. Dezenas de hóspedes tentam não pisar em Ronaldinho e em Roberto Carlos. Chega o ônibus de dois andares da Associação Argentina de Futebol que os levaria ao treino e os policiais que protegeriam a delegação. Wanderley Luxemburgo não se contém ao ver o tamanho do veículo. Ele havia exigido um ônibus simples, que pudesse entrar com a Seleção no Centro de Treinamento do Vélez Sarsfield e não sujeitar o time a caminhar muitos metros entre os torcedores argentinos.
"Meus jogadores não vão entrar nesta porcaria de ônibus. Eu já tinha avisado. Primeiro vocês chegam atrasados, depois vêm com um ônibus duplo. Não tem conversa", disse em voz alta para o assustado dirigente da AFA, Fernando Paz, enquanto os atletas trocavam o treino por uma sessão de musculação.
A situação serviu para provar que, ao contrário de seus antecessores, Luxemburgo não é apenas o treinador da equipe. Sua função é a de diretor-técnico também. O presidente Ricardo Teixeira autorizou o treinador a tomar todas as atitudes necessárias, como um chefe da delegação. Não há a necessidade de reuniões burocráticas. "Meu comportamento na Seleção é igual ao que eu tinha no Bragantino: onde estiver acontecendo algo errado
vou berrar, me meter e consertar. Não sou homem de ver bagunça e ficar calado. Tenho autonomia. E essa zona não aconteceu por nossa culpa, mas da organização argentina."
TEIXEIRA - Não há nenhum dirigente da CBF na Argentina. Luxemburgo é o responsável pela delegação até a noite de sexta-feira, quando o presidente Ricardo Teixeira chegará para assistir ao amistoso de sábado. "A figura de diretor-técnico é comum na Europa. Mas me sinto à vontade porque sei que posso fazer mais do que treinar a equipe", afirma Luxemburgo. Sua única responsabilidade é telefonar a Ricardo Teixeira contando os problemas que enfrentou no dia com a Seleção.
O técnico havia ficado irritado porque o motorista que levou a equipe para o treino de terça-feira errou o caminho do CT do Vélez e passou por uma favela. Reconhecidos, os brasileiros foram muito xingados, principalmente de "macaquitos".
Fernando Paz ficou constrangido diante da ríspida cobrança de Luxemburgo. Preso à hierarquia, ele não esperava que o treinador brasileiro fosse questioná-lo. "Recebi todas as Seleções que disputaram as Eliminatórias para a Copa de 98 e não houve problema. Não houve má intenção. Não há ônibus menor do que esse para os jogadores de futebol. A não ser que eu traga um escolar para os brasileiros."
Mas o dirigente teve de ir com o administrador Marco Antônio Felix da Silva fazer um teste com o ônibus vazio no CT do Vélez. O ônibus entrou raspando. O treino da tarde estava salvo. "Graças a Deus e ao Espírito Santo deu tudo certo", disse Felix.
Mais calmo, Luxemburgo pôde treinar o time. Caprichou na aproximação e marcação. Está claro que em Buenos Aires irá escalar três volantes para travar a iniciativa dos donos da casa. O meia Juninho, do Vasco, se incorporou ao grupo hoje. Amanhã (02) deverão chegar Dida, João Carlos, Vampeta, Scheidt, Ronaldinho Assis e Luiz Alberto, que jogariam por suas equipes na noite desta quarta-feira. O único coletivo para o amistoso deverá ocorrer amanhã à tarde, quando Luxemburgo vai definir a escalação da dupla Ronaldo e Élber como titular no ataque.

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