Seleção de 82 é a melhor desde o tri
Seleção de 82 é a melhor desde o tri
Especial para a Folha
Como é que foi a convocação do Dario em 1970? Teve mesmo aquela história de o presidente Médici mandar o técnico chamar o atacante?
Pelé Ä Quando teve esse negócio, o João Saldanha já estava fora (o técnico da Seleção era Zagalo). Foi pressão mesmo do presidente Médici. Ele telefonou para o Antônio do Passo (diretor da Confederação Brasileira de Desporto, entidade antecessora da CBF), pedindo que o Dario fosse convocado. Mas ele não jogou no México.
O futebol entre 1958 e 1970 comparado com o de hoje mudou. Houve decadência técnica e por que?
Pelé Ä Eu acho que um dos grandes problemas da nossa decadência técnica individual são os técnicos de base. Criou-se muitas escolinhas e os técnicos não têm essa característica e tiram toda a habilidade individual dos jogadores.
Isso repercute no futebol profissional?
Pelé Ä O que eu noto hoje é jogador reclamando do próprio companheiro que prende muito a bola. O Denílson no São Paulo, por exemplo. O técnico Murici Ramalho vai lá na beira do campo e manda o cara soltar a bola, enquanto ele está trabalhando com habilidade. Eu acho que os técnicos estão reprimindo mais a habilidade dos jogadores. As equipes hoje são mais de conjunto. Mas a gente fala em craques do passado. Aí a gente lembra de dez nomes. Mas, fala quatro, agora, que eu quero ver. Não tem. Craque, mesmo, não tem.
Se fosse possível jogar no computador as seleções tetracampeãs (as de 1958, 1962, 1970 e 1994) mais as de 1950 e de 1982, o que ia dar?
Pelé Ä Eu acho que a de 82 foi uma grande seleção. A melhor dos últimos tempos. Só não ganhou o campeonato.
Nilton Ä É. Ali tinha o Júnior, Falcão, Sócrates, Zico. Pô, mil caras...
Para ganhar uma Copa do Mundo é preciso jogar feio?
Pelé Ä Eu acho que não. Nós temos uma grande vantagem que é essa ida de jogadores para a Europa. Esses jogadores já conhecem como se joga lá. No nosso tempo não tinha isso. Os que jogavam na Europa não tinham lugar na seleção. Eu acho que o único foi o Dino Sani que voltou da Itália.
Não tinha intercâmbio...
Pelé Ä O nível era tão bom aqui que não era preciso trazer os que jogavam lá.
Nilton Ä O Orlando (titular em 1958) estava na Argentina e ninguém foi buscar ele lá para a Copa de 1962 (no Chile). E a Argentina é aqui pertinho.
Pelé Ä É que tinha muito jogador do mesmo nível então não havia necessidade. Por exemplo. Na última Copa, teve que trazer o Romário da Holanda, porque não tinha centroavante. Isto nunca aconteceu. Sempre tinha três, quatro.
O que fazer para mudar a mentalidade dos jovens jogadores?
Pelé Ä Tem que falar com os técnicos dos garotos. Às vezes eu vou lá treinar com o time do Santos. Aí, quando acaba o treino os garotos parecem que são todos industriais, todos têm firma, porque todos se mandam. Um dia eu pedi para o Edinho (goleiro, filho de Pelé) ficar batendo bola comigo. Pô o seu trabalho é esse, jogar bola, mas eles se mandam para a praia. Caramba, por que não fica batendo bola, treinando bater falta? O que a gente fazia na nossa época. Mas os garotos de hoje não. Eles ganham bem, têm outro nível de vida... Agora, tem um ou outro que faz isso. O Marcelinho, por exemplo, treina muito bater falta.
O Dunga fazia isso durante a Copa. Nos dias de folga ele ia treinar.
Pelé Ä Por isso ele aperfeiçoou o seu futebol. Nesta última Copa ele foi a grande surpresa, fazendo passe, metendo bola de curva. No Santos, ele só dava trombada.
Nos treinos, o camisa 10 do Santos também ia para o gol...
Pelé Ä Você se lembra que eu apostava com os caras. Eu batia cinco pênaltis e ia defender cinco. Dificilmente eu perdia...
Nilton Ä Eu lembro disso.
Tanto treino serviu até para defender pênalti em jogo oficial...
Pelé Ä Foi contra o Grêmio, em Porto Alegre. O goleiro foi expulso e não podia trocar o goleiro e aí eu fui para o gol. Mas na Seleção eu também era reserva do goleiro. Eu era bom pra caramba.
Nilton Ä Você era bom porque eu não era atacante (risos). Se não você ia para um canto e eu colocava a bola no outro...
E você Nilton, qual foi o pior atacante que teve que marcar?
Nilton Santos Ä Todos. Vestindo camisa diferente já era chato (risos). Na minha época tinha Cláudio no Corinthians, tinha Maurinho no São Paulo, Julinho, Sabará. Um dia eu dei um drible no Sabará com medo de encontrar com ele. Rapaz! Ele dava muita trombada. Eu dei um drible nele. A bola dividiu, toquei de um lado e corri para o outro. Ele voltou, eu passei o pé por cima da bola e ele passou. Aí ele saiu de cabeça baixa para o centro do campo. Eu até pensei em ir pedir desculpas... ficou chato. Me deram até um relógio de prêmio nesse dia.
Pelé Ä O Joel do Flamengo, é que era chato. Mas o mais chato era o Julinho (Julinho Botelho, Portuguesa, Palmeiras e Fiorentina).





