Michael Schumacher compreendeu logo: ‘‘O Mundial acabou para mim na hora em que o motor da minha Ferrari morreu no grid’’. O trabalho de mais de 7 mil quilômetros de testes realizados entre a corrida de Nurburgring e o GP do Japão diluiu-se em segundos por causa de um problema simples, na visão do alemão. ‘‘Eu engatei a primeira marcha e o motor apagou’’, disse ele na entrevista coletiva concedida após a prova de ontem em Suzuka. O motivo do abandono de Schumacher no GP do Japão foi, no entanto, a explosão do pneu traseiro direito, em plena reta dos boxes, na 31ª volta.
O diretor técnico da Ferrari, o inglês Ross Brawn, não pôde precisar o que se passou com o carro de Schumacher, mas tinha ontem uma idéia: ‘‘O motor morreu por causa de uma combinação de fatores’’, explicou. ‘‘Primeiro nós tínhamos problemas de temperatura no motor, em razão das sucessivas largadas canceladas’’, ele arrisca.
A TV mostrou os mecânicos italianos jogando gelo seco em frente aos radiadores do carro para esfriar o motor. Brown prosseguiu: ‘‘O calor excessivo nos componentes da embreagem, combinado com o esforço das duas largadas, ainda que o sistema não tenha sido solicitado no limite, fez com que a embreagem colasse.’’
Brawn deu um parâmetro mais próximo de quem não é piloto de Fórmula 1 para compreender o que se passou. ‘‘Seria como se a primeira marcha já estivesse engatada, o motorista mantivesse o pé direito no freio e de repente tirasse o pé esquerdo da embreagem’’, ele descreve. Nessa situação, o motor morre. ‘‘Nós fizemos muitos testes de largadas, é difícil aceitar o que se passou’’, lamentou o diretor técnico da escuderia italiana.
Schumacher não estava decepcionado por ter perdido o campeonato. ‘‘Não estou feliz, lógico, mas sinto-me orgulhoso do trabalho que realizamos.’’ Para ele, a Ferrari e a Goodyear conseguiram o que quase ninguém acreditava ser possível. ‘‘Chegamos à ultima corrida da temporada disputando o título com a McLaren’’, ele justificou. Schumacher falou que perdeu o Mundial não no GP do Japão, mas nas etapas iniciais da competição. ‘‘Enquanto testávamos tudo no carro para nos aproximar da McLaren, eles foram vencendo’’, recorda.
As declarações surpreendentes de duas semanas, quando comentou ter tido a premonição de que seria campeão, não mereceram nenhum comentário do piloto, mas de novo ele foi místico. ‘‘Acho que estava escrito que nós não ficaríamos com o título.’’
Ao deslocar seu carro para a última colocação no grid, só lhe restava exigir tudo da máquina o tempo todo - e foi o que fez. ‘‘Apesar de saber que seria muito difícil reverter a situação, acelerei o que a minha Ferrari permitia e me diverti bastante.’’ Ele agradeceu a todos os pilotos que o facilitaram pular da 22ª posição no grid até a sétima colocação na corrida, ainda na quinta volta.
Mas destacou o trabalho de Damon Hill, que o segurou até a 14ª volta, quando o inglês fez seu primeiro pit stop. ‘‘Não posso dizer que Hill foi desonesto comigo, mas não me favoreceu em nada, o que eu já esperava.’’ A explosão do pneu traseiro direito, na 31ª volta da prova, o pegou de surpresa. ‘‘Cheguei a consultar o meu box sobre a necessidade ou não de antecipar minha segunda parada por causa do desgaste excessivo dos pneus dianteiros e não os traseiros.’’
Não foram eventuais detritos do acidente entre Esteban Tuero, da Minardi, e Toranosuke Takagi, da Tyrrell, que causaram a explosão do seu pneu, segundo o alemão. Schumacher cumprimentou Mika Hakkinen ainda dentro do carro da McLaren, depois da conquista, e disse que o finlandês mereceu o título. Havia bons anos que a Fórmula 1 não assistia a um final de campeonato com tanta lisura.

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