Porto Alegre, 11 (AE) - Quase dois meses após o antidoping detectar a substância proibida DHEA (dehidroepiandrosterona) na sua urina, atrapalhar sua carreira e arranjar-lhe uma série de aborrecimentos, o zagueiro Scheidt, do Grêmio, manda um aviso cheio de determinação: "Vou buscar a seleção de novo", aposta. "Fui injustiçado. Isto não teria que acontecer comigo", diz, relembrando o resultado do teste ocorrido depois do jogo contra o Flamengo, pela Copa do Brasil, no dia 21 de abril. Apesar da frustração de não poder ser convocado, Scheidt não se abala. Disputa o Campeonato Gaúcho com a mesma seriedade de sempre e neste domingo começa a decidir, contra o Inter do goleador Christian, quem será o campeão gaúcho.
Quem acompanha seus jogos percebe que a suspeita não atrapalhou seu futebol. Nem na partida contra o Inter/SM, em Santa Maria, no dia seguinte ao estouro da notícia, quando a torcida adversária chamava-o de "Scheidtnegger" - uma alusão ao ator brutamontes Arnold Schwartznegger, supostamente usuário de anabolizantes. Nem muito menos no 2x1 sobre o Veranópolis, na quinta-feira, no estádio Olímpico, quando até marcou o gol da vitória.
Mesmo ainda triste com o episódio, Scheidt assegura que muda completamente ao pisar em campo. "Fico com aquela certeza de que tudo passa e que a vida não acaba aqui", registra. É quando se vale do que julga ser sua principal virtude como jogador de futebol. "Sou calmo", explica. É com a mesma calma, agregada de ironia, que o "Alemão" - como parte dos torcedores o chama - enfrenta as zombarias na rua. "Às vezes, gritam "Aí drogado" e eu respondo "Legal, então somos dois", assim sem levar a sério, embora aquilo incomode", relata.
Depois de decidir o Campeonato Gaúcho, Scheidt ficará na expectativa de outra decisão: no dia 24 deste mês acontecerá seu julgamento na CBF. Ele espera que a Lei Pelé seja levada em consideração. Caso isto ocorra, mesmo se for condenado, teria que cumprir apenas mais 14 dias de suspensão. O Grêmio vai brigar pela sua absolvição, tentando evitar que Scheidt seja o primeiro atleta a ser punido por uso de DHEA no mundo com base exclusivamente em laudo laboratorial. Até hoje, segundo o departamento jurídico do clube - que questiona a capacidade técnica do laboratório Ladetec, usado pela CBF, para firmar um laudo sobre a origem orgânica ou externa do DHEA - somente houve uma penalização deste tipo e assim mesmo devido à confissão do acusado.
Noivo da estudante de enfermagem Michele, de 20 anos, Rafael Felipe Scheid, 23, estreou nos profissionais em 1994 em um amistoso contra o Colón, da Argentina. Diante do Veranópolis, na quinta-feira, disputou sua 130a. partida no Grêmio. "Cria" das categorias inferiores do clube, foi emprestado para o Frontale Kawasaki, do Japão, em 1997 e sua carreira poderia tomar outro rumo, como a venda em definitivo ou novo empréstimo.
Até retornar do Japão, em 1998, Scheidt nunca fora prestigiado pelos diversos treinadores que passaram pelo Olímpico. No tempo de Luiz Felipe Scolari, sua dupla titular - Rivarola e Adílson, mais tarde substituído por Mauro Galvão - não dava chance aos adversários e tampouco aos suplentes. Mais tarde, o Grêmio tentaria outras formações da zaga sem sucesso. Até que, em 1998, Sebastião Lazaroni resolveu segurar Scheidt no Grêmio, como mais uma opção de trabalho. O zagueiro aproveitou a oportunidade, virou titular incontestável com o técnico seguinte, Celso Roth, até hoje no Olímpico, e chegou à Seleção.

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