Depois de mais de um mês de crise, com contusões e suspensões de atletas, discussão sobre premiação, sete derrotas e até briga entre torcedor e jogador, a bomba finalmente explodiu no São Paulo. Ontem pela manhã, o presidente do clube, José Augusto Bastos Neto, demitiu cinco integrantes da comissão técnica sem avisar o treinador Nelsinho Batista, que, em solidariedade aos companheiros, entregou o cargo. O diretor de futebol, Manoel Poço, também não gostou da atitude do presidente e deixou o clube.
Os cortes começaram após uma reunião entre Bastos Neto e o elenco são-paulino no Centro de Concentração e Treinamento da Barra Funda. O primeiro a ser demitido foi o preparador físico Moracy SantAnna, que ficou sabendo de seu desligamento pelo diretor-administrativo do clube, Rodrigo Souza Aranha. ‘‘Saio sem receber nenhuma explicação, pois ninguém veio conversar comigo’’, disse Moracy, indignado.
Após duas vitoriosas passagens pelo Morumbi, o preparador foi embora com lágrimas nos olhos. ‘‘O meu passado e as minhas conquistas não vão ser tirados de mim. Fui injustiçado.’’
Enquanto Moracy lamentava a sua saída, o seu auxiliar, Wanilton Zambroti, e o auxiliar-técnico de Nelsinho, o ex-jogador Heriberto, já arrumavam as malas para partir. Nas arquibancadas do CCT, os torcedores, furiosos, xingavam os jogadores e os dirigentes e pediam a volta de Telê Santana. Em clima tenso, Nelsinho começou o treino, o seu último no São Paulo. A bola rolava no campo, quando Manoel Poço apareceu para justificar as demissões: ‘‘Foi uma exigência do presidente’’.
Segundo o dirigente, Bastos Neto pediu, na reunião, para que os jogadores descontentes deixassem o clube. ‘‘Parece que está todo mundo feliz aqui, pois ninguém reclamou’’, afirmou Poço, antes de anunciar mais dois cortes: o do fisioterapeuta Júlio Suman e o da nutricionista Patrícia Bertolucci. Poço afirmou ainda que todos os atletas que participaram da humilhante derrota para a Portuguesa por 7 a 2, no domingo, seriam punidos, com um desconto de 20% do salário. Apenas quem ganha menos de R$ 10 mil por mês escaparia da multa.
Quando o treinamento acabou, Nelsinho ficou sabendo, por meio da imprensa, das demissões de seus companheiros, demonstrando profunda irritação. Pouco tempo depois, conversou com Poço para formalizar o seu pedido de demissão. Poço, por sua vez, ligou para Bastos Neto para comunicar a decisão de Nelsinho e avisou que também estava se desligando do clube.
‘‘Como comandante do São Paulo, eu deveria ter sido consultado sobre qualquer decisão da diretoria sobre mudanças na comissão técnica’’, disse o agora ex-comandante do tricolor. ‘‘Tudo isso é uma total falta de comunicação e respeito para com os profissionais demitidos; por isso, me incluo na lista dos dispensados’’, completou Nelsinho. ‘‘Demitiram pessoas próximas a mim e eu nem fui avisado de nada.’’
Nelsinho deixou o clube às 15 horas, sendo consolado, na despedida, pelo auxiliar-técnico Paulo Nani e o preparador físico Sérgio Rocha, sobreviventes da crise. O treino da tarde, realizado sob um clima de tristeza e decepção, foi coordenado pelo técnico do juvenil, Pita, interinamente no time principal.
Na segunda-feira, um dia após a trágica derrota do São Paulo para a Portuguesa por 7 a 2, o técnico recebeu o apoio de Poço e Bastos Neto para continuar no comando da equipe. Nelsinho estava ‘‘prestigiado’’ por ter conquistado o título do Campeonato Paulista deste ano. Curiosamente, em 1997, o treinador foi campeão estadual pelo Corinthinas e demitido, poucos meses depois, por estar realizando uma péssima campanha no Brasileiro.
A diretoria do São Paulo convidou o técnico Paulo César Carpegiani para ocupar a vaga de Nelsinho. Até o começo da noite de ontem, o treinador - que fez um trabalho bastante elogiado na seleção do Paraguai no Mundial da França - ainda não havia dado uma resposta.Sebastião Moreira/AE(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Último a saberO técnico Nelsinho abaixa-se para recolher cones durante o treino do São Paulo, antes de pedir demissãoApós o humilhante 7 a 2 de domingo, a bomba estoura de vez no tricolor; Carpegiani pode dirigir time

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