Santa Felicidade festeja à italiana
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de julho de 2006
Flora Guedes<br>Equipe de Folha 
Curitiba O bairro de origem italiana de Santa Felicidade, em Curitiba, ficou pequeno para tanta comemoração. Os descendentes de italianos ficaram eufóricos com a vitória da Itália sobre a França e para extrapolar tanta alegria, eles e alguns italianos natos se dividiram nos gestos de emoção: uns entoaram canções e ostentaram a bandeira tricolor, outros se abraçaram, pularam e houve quem gritasse até perder a voz. Assim como souberam ganhar a Copa do Mundo, na raça, os italianos também mostraram uma torcida em polvorosa, que há 24 anos, aguardava o momento de exclamar: tetra campione!
Cerca de 250 descendentes e simpatizantes se reuniram, ontem à tarde, na Cantina Durigan, para participar da torcida organizada pelo Círculo Italiano da Casa Culpi em Santa Felicidade. Nosso coração é do Brasil, mas hoje nossa alma é da Itália. Foi uma ótima surpresa chegar até a final. A equipe cresceu ao longo da Copa, mostrando força de vontade e um futebol bonito em campo, contou o relações públicas do Círculo, Cézar Augusto Culpi. Além da decoração do espaço, o quarteto de música Alegre Musicanti e o grupo folclórico Giardino DAmuri animaram a festa que foi regada a muito vinho (cerca de 200 litros) e 15 quilos de polenta para acompanhar.
Além da fartura à mesa, os descendentes tinham confiança de sobra na vitória italiana. Estamos em jejum há mais tempo do que os franceses, por isso, nossa fome de vencer é maior. E vamos mostrar isso em campo, disse confiante Culpi. Já no começo da partida, a torcida ficou inconformada com o pênalti marcado a favor da França, aos cinco minutos do primeiro tempo. Mesmo após o gol, todos estavam esparançosos, gritando Força Itália! Força Itália! Uma das torcedoras da cantina se destacou pela vibração que mostrava a cada ataque e defesa da Azurra. Com a bandeira amarrada na cabeça, ela chegou a enrolar alhos em volta do pescoço. Chama o gol que ele vem, gritou Estela Berti Campos, de 65 anos.
E não é que ele veio. O zagueiro Materazzi marcou, de cabeça, quando o relógio marcava 19 minutos do primeiro tempo. Bastou para que todos provocassem um barulho ensurdecedor na cantina. Bravo, bravo, gritava o engenheiro civil Alessandro Odorizzi, de 27 anos, filho de pai italiano e mãe descendente de italianos. O rapaz, que passou todo jogo falando em italiano, vibrava a cada ameaça de ataque do time e incentivava os jogadores, batendo palma e gritando os nomes deles, como se estivesse à beira do campo do Estádio Olímpico de Berlim, na Alemanha. O juiz argentino é muito ruim e marcou um pênalti inexistente. Mas estamos melhor no jogo do que os franceses. Dessa vez, a Copa é nossa, afirmou ele, que nunca viu a Itália vencer uma Copa.
Dentre os descendentes, estavam alguns italianos, como o empresário Gerardo Petroni, 48 anos, que chegou no dia 4 de julho ao Brasil no dia do jogo Itália x Alemanha , junto com a esposa brasileira, Fabíola Campos, 33 anos, também descendente de italianos. Viemos passar as férias aqui e está sendo muito bom presenciar a torcida daqui, que demonstra muito amor pelo futebol italiano e transforma tudo numa festa. Acredito que no segundo tempo a equipe vá mudar a tática e vencer, disse Petroni. Lá na Itália as pessoas também comemoram bastante, mas costumam brigar e fazer bagunça, completou Fabíola, no intervalo antes do segundo tempo.
Outro momento de rebuliço na cantina foi depois da agressão do meia francês Zinedine Zidane, que culminou com sua expulsão. Todos levantaram das cadeiras exaltados e gritaram maledeto!, maledeto!, apoiando a decisão do juiz. Ao terminar a prorrogação em 1 x 1, a torcida estava bastante apreensiva, mas ainda confiante, como o aposentado Giuseppe Macchioni que mora no Brasil há 54 anos , figura já conhecida da colônia italiana de Santa Felicidade. Depois da decisão pelos pênaltis, o senhor, de 79 anos, gritou agarrado à bandeira do país natal. Vencemos a Copa do Mundo. Essa foi mais difícil do que a nossa última vitória, em 1982, porque foi preciso lutar até o final pelo título. Haja coração, disse ele.


