Salve Jorge, o Anjo da Guarda
Marcos Freitas
De Londrina
A constelação de estrelas que compõem a Seleção Brasileira é farta. São pelo menos 50 pessoas que trabalham para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), fazendo de sua profissão uma missão de ajuda para o time. Os mais visados pela torcida são os 20 jogadores e, é claro, os 11 titulares. Afinal, são eles quem têm a missão de dar ao Brasil a vaga para Sydney.
Mas tem muita gente que ajuda a seleção e quase sempre passa em branco aos olhos do torcedor. Sem eles, porém, certamente o sucesso não aconteceria. São massagistas, motoristas, roupeiros, seguranças, cinegrafistas enfim, um verdadeiro exército de formiguinhas que ajuda a fazer da Seleção Brasileira um marco em qualidade profissional.
De tantos trabalhadores anônimos na Seleção um se destaca pelo carisma, profissionalismo e cuidado com os detalhes que cercam os jogadores. É o massagista Jorge Fernando da Rocha Ferreira, o Jorginho. Ele é o primeiro a chegar aos treinamentos, aos estádios em dias de jogos, ao aeroprto em dia de viagem, e também é um dos últimos a sair de todos estes lugares.
Um dos responsáveis pela armação do circo que compõe a Seleção, Jorginho tem cuidado com cada material, cada frasco de repositor energético, cada copo dágua, com as frutas, as pomadas, as ervas medicinais enfim, nada passa despercebido ao olhar atento deste carioca de 50 anos. Quando perguntado sobre a razão de tanto cuidado, ele responde mansamente: Porque sou um privilegiado em servir minha bandeira, em servir meu País, aqui representado pela Seleção Brasileira.
Jorginho é tão atencioso que é capaz de cortar as unhas dos jogadores para que eles não se machuquem ao tentar fazê-lo. Cuida das frutas como se fossem gente. Isto é muito importante para os atletas, aqui tem muita vida, ensina.
Nas frasqueiras com remédios, pomadas e materiais para massagens, a organização mais parece um balcão de farmácia. Os detalhes dão um toque especial. São pedaços de esponja que ajudam a aliviar a dor na hora de uma pancada, ervas medicinais para qualquer eventulidade extra-campo, como dores de barriga ou garganta, remédios e pomadas separadas por elásticos enfim, tudo pronto para ser usado a qualquer momento. São manhas e artimanhas que a gente aprende ao longo da carreira.
Casado há 25 anos com Norma a quem ele define como sendo sua alma gêmea Jorginho tem um filho, Victor Hugo, de 10 anos. Antes do casamento ele teve Janaína, que hoje tem 25 anos.
Jorginho começou a carreira de massagista no América carioca, no final da década de 60, logo depois que concluiu o curso de especialização na Escola de Educação Física do Exército. Foi uma experiência muito boa, pois naquela época o estudo sobre a matéria ainda estava começando, lembra. No início dos anos 80 ele foi trabalhar nos Emirados Árabes, onde ficou por cinco anos. Desta viagem muitas lições ficaram: Aprender uma nova língua e ter que deixar a família não foi fácil.
Ele conta que o trabalho desenvolvido lá foi um verdadeiro desbravamento. Fui para o interior, onde o futebol era extremamente amador, conta, lembrando que a mesa de massagem era algo tão improvisado que hoje ele até acha graça. Era uma tábua, tipo um banco, que ficava em cima de dois cavaletes, conta.
Mas a falta de estrutura não foi o único obstáculo no Oriente Médio. Durante sua estada, Jorginho ficou oito meses sem receber salários. Foi terrível, pois nem sabia se iria reaver meu dinheiro, comenta.
Demorou pelo menos três anos para ele conseguir receber o que lhe deviam, e nesse espaço de tempo, ele conseguiu emprego na Arábia Saudita, onde trabalhou no já extinto clube Al Emirat. Depois, conseguiu uma transferência para o Al Nasser, onde o profissionalismo já era uma realidade.
Cansado do mundo árabe e de ficar longe de seus familiares, Jorginho resolveu voltar ao Brasil para aplicar as suas economias na compra de uma casa própria. Mal ele sabia que a sonhada volta para o seu Rio de Janeiro querido seria um verdadeiro pesadelo. Voltei com 20 mil dólares e fui assaltado na recepção de um grande hotel, diz.
Jorginho afirma que, naquele momento, viu seu mundo cair. Afinal, foram tantos anos de sacrifício para alguns segundos de terror e outros tantos anos de pesar. Mas assimilei o golpe e graças a Deus tive forças para me reerguer, diz.
Sem perspectivas, ele voltou para a Arábia, onde permaneceu por quase 10 anos e defendeu o país na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Uma experiência fantástica ter que cantar outro hino além do brasileiro, comenta.
No ano seguinte, ele voltou ao Brasil e viveu um ostracismo que jamais imaginaria ter que passar. Fiquei anos fora, me reciclando, estudando, enfim, me preparando para ser um dos melhores e quando voltei não havia emprego para mim, conta, com lágrimas nos olhos e lembrando que, para não passar fome, teve que se virar trabalhando como motorista de uma fábrica de latícinios.
Mas a partir de 1997 veio a recompensa, quando conseguiu emprego no Santos, onde Wanderley Luxemburgo trabalhava e onde Jorginho está até hoje. Em dezembro do ano passado ele foi convocado por Luxemburgo para fazer parte da equipe da Seleção Brasileira. A lembrança da notícia dada pelo amigo Antonio Carlos Melo é algo que Jorginho diz jamais esquecer.
Depois de ter passado tantas dificuldades fazer parte deste elenco é maravilhoso, conta. Talvez seja por isso que a dedicação de Jorginho é muito mais que 100%. Afinal, se alguém der apenas 100% de si para a Seleção, será o mesmo que qualquer outro profissional, diz. Aqui, vestindo esta camisa, todos temos que ser e fazer muito mais que o normal.





