Salvador, 08 (AE) - Uma festa bem baiana, com batucadas e trio elétrico, aguarda o campeão mundial dos superpenas, pela Organização Mundial de Boxe, Acelino "Popó" de Freitas, que tem chegada prevista para as 14h30min desta terça-feira (10) em Salvador. O irmão do pugilista, o produtor musical Toni Freitas, anunciou a contratação de um trio elétrico
que ficará estrategicamente posicionado no bairro da Cidade Nova, onde mora a família do lutador.
Do aeroporto, Popó vai circular em carro aberto do Corpo de Bombeiros, percorrendo a maior parte da orla de Salvador, antes de seguir para a Cidade Nova, num trajeto de cerca de 15 quilômetros. Os vizinhos e amigos dos lutadores vão alugar quatro ônibus, que sairão das proximidades da Academia Champion, onde treinam Popó e os principais pugilistas da Bahia, como seu irmão Luiz Cláudio, que esteve na Olimpíada de Barcelona e tem uma coleção de títulos nacionais e sul-americano entre os pesos mosca, e Kelson Carlos, medalha de prata nos Jogos Pan-americanos.
A academia Champion pertence a Luiz Dórea, treinador de Popó, que já conquistou para o Brasil um título mundial júnior dos meios-médios-ligeiros em 1988. Como aquecimento para a festa
a Cidade Nova amanheceu animada, hoje. A banda "Estarsamba" centralizou a atenção, estreando a dança do nocaute.
A novidade da coreografia foi a maior utilização dos braços, em movimentos rápidos, para frente e para trás, simulando os golpes que derrubaram o russo Anatoly Alexandrov.
Antes de vir para Salvador, Popó passa amanhã (09) em São Paulo, onde vai conceder entrevistas e cumprir programação estabelecida pela empresa Oficina de Idéia, que administra sua carreira. Os familiares e amigos de Popó deixaram o bairro pobre da Cidade Nova, na tarde de sábado, para assistir à luta em um telão instalado no Clube Bahiano de Tênis, que integra a elite de Salvador. Dona Zuleika, a mãe do lutador, não resistiu e deixou o amplo salão no exato momento em que o combate começou.
Nervosa e chorando muito, mal conseguia segurar com as mãos trêmulas um terço de contas brancas, dedicado ao Senhor do Bonfim, seu padroeiro. "Pedi muito que ele olhasse por meu filho", disse. Ao ouvir os gritos e perceber a histeria coletiva que tomou conta do clube, Zuleika chorou ainda mais.
Zuleika voltou a se preocupar, ao saber que seu filho havia mandado o russo para o hospital com a sequência de golpes. "Se eu tivesse melhor condição de vida, tinha tirado meus filhos disso", afirmou Zuleika, que acha o boxe um "esporte muito violento".
Além de Popó e Luis Cláudio Freitas, os irmãos Nilton e Paulo Roberto também são pugilistas. Apenas Toni descalçou as luvas para ser D-J e produtor de bandas emergentes.
Se o boxe preocupa dona Zuleika, a luta pela vida é ainda mais dura. Somente há pouco mais de uma mês ela realizou o sonho de morar em uma casa confortável, comprada por Popó. Com três cômodos, cozinha, área e um amplo corredor, a casa na ladeira do Ipiranga era o maior sonho da mãe, que vivia da pensão do avô de Popó, um ex-coveiro. Antes do sucesso de Popó, para complementar nas despesas, Zuleika fazia biscates, como alisar a ferro quente os cabelos das mulheres negras do bairro, enquanto o pai, Niljalma, anotava os palpites de apostadores de jogo do bicho.
A família de pugilistas morava numa casa modesta, em uma transversal da Ladeira do Paiva. Antes, chegou a habitar um casebre tão humilde que na porta do barraco passava esgoto a céu aberto e dependia de favores para se alimentar.
Para os irmãos de Popó, a vitória pode servir de estímulo para que as autoridades passem a apoiar o boxe baiano. A família Freitas recebeu telegrama do governador César Borges, parabenizando Popó pela conquista.
A vitória de Popó manteve também o pugilista baiano no páreo para quebrar o recorde mundial de nocautes consecutivos em início de carreira. Agora, Popó tem 21 nocautes, mas o atual recordista, o norte-americano Billy Fox, está ainda com uma larga vantagem, com 43 nocautes. Popó já superou Mike Tyson, que nocauteou seus 19 primeiros adversários.

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