Sacrifícios e dólares no Oriente Médio
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sábado, 09 de outubro de 2010
Thiago Mossini<BR> Reportagem Local 
Enquanto o primeiro escalão do futebol brasileiro dá as cartas nos principais clubes europeus, o segundo é quem comanda o futebol no Oriente Médio, novo eldorado para os jogadores tupiniquins nos últimos anos. Se falta tradição aos países banhados pelo Golfo Pérsico, sobram petrodólares para seduzir os brasucas.
Jogadores, técnicos, preparadores físicos, treinadores de goleiro. A invasão verde e amarela atinge todos os setores do futebol desses países. Raros sãos os times que não contam com brasileiro no elenco, seja no Catar, nos Emirados Árabes, na Árabia Saudita ou em centros ainda menores.
Os salários milionários, entretanto, vêm acompanhado de alguns sacrifícios próprios da cultura de cada país árabe. Comida, religião, costumes, são obstáculos a serem superados pelos ocidentais.
O Ramadã é um deles. Durante um mês o povo muçulmano é obrigado a mudar seus hábitos radicalmente, a ponto de um simples ato de beber água fora dos horários estipulados ser considerado crime.
O jejum é obrigatório enquanto houver a luz do sol. O Ramadã é regido pelo Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. As pessoas só podem comer e beber durante a noite, além de serem obrigadas a rezar cinco vezes por dia. As relações sexuais também são proibidas. As normas se estendem aos estrangeiros que moram nesses países, caso eles estejam com nativos.
''Olha, difícil mesmo é a adaptação ao sistema deles. Comida, religião, horários. A comida é excelente, porém apimentada demais para nossos padrões. Na época do Ramadã, a gente só treina à noite depois da primeira refeição. Por volta das 22 horas. Eu mantinha os jogadores acordados até às 4, 5 horas da manhã para servir o jantar'', conta o técnico Herón Ferreira, ex-Coritiba, que já rodou por todo o Oriente Médio e, até o fim do ano passado, trabalhava no Al Ahli, do Catar.
Além da questão religiosa, o clima é outro entrave na vida dos boleiros daqui que jogam por lá. Não é difícil a temperatura bater a casa dos 40 graus mesmo no inverno. Assim, treinar ou jogar durante o dia nem pensar. ''No verão, em alguns países a temperatura chega a 50, 55 graus durante o dia o que torna impossível treinar. Só à noite mesmo e isso limita o número de sessões semanais'', explicou Ferreira. ''Para treinar durante o dia só mesmo em salas de musculação ou ginásios climatizados''.
Saudade
Esses obstáculos culturais muitas vezes acabam influenciando diretamente no desempenho dos jogadores que não são nativos da região. ''O lado negativo acredito que seja a saudade do clima, amigos e alguns familiares que ficaram no Brasil. Nem tudo pode ser perfeito (risos). Aqui temos de respeitar a cultura do país, movido pela religião e fé. Cada um tem a sua crença, por isso eu respeito bastante isso'', afirmou o atacante Victor Simões, que trocou o Botafogo pelo Al Ahli, da Árabia Saudita, há quase um ano. ''Não é todo jogador que consegue ficar em um país cheio de restrições. Graças a Deus eu tenho facilidade para me adaptar em outros países, foi assim na Bélgica e na Coreia do Sul. Por isso, de certa forma, tiro isto de letra. Tento aproveitar as férias no Rio de Janeiro, porque sei que depois serão 11 meses de reclusão (risos)'', confessou.
Vice-presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF) para a região Norte, o advogado Hélio Camargo tem bom trânsito no Oriente Médio pelas transações que fazia nos tempos em que dirigia a Portuguesa Londrinense. Ele ainda auxilia técnicos e jogadores que tentam se aventurar por lá. Camargo ressalta que para jogadores menos conhecidos, que não vão ganhar salários astronômicos, é mais complicado suportar. ''Nos Emirados Árabes têm sido mais fácil. Em Abu Dhabi e Dubai, o pessoal tem se adaptado mais por serem lugares mais abertos em relação aos demais. Mas para jogador solteiro é complicado. Pois não pode sair, não pode namorar e aí fica muito dependente da internet'', disse.


