'Russos' de alma brasileira
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domingo, 27 de outubro de 2013
Rafael Souza<br> Reportagem Local 
Cirilo, Robinho, Gustavo, Pula, Rômulo, Éder Lima...Quem vê esses nomes na escalação da seleção russa de futsal logo tem a certeza de que não se tratam de nomes característicos do país do leste europeu. Pois bem, não é preciso mesmo entender muito de futsal para saber que são nomes e apelidos de jogadores brasileiros.
E não é de hoje que eles aparecem com frequência nas convocações da seleção russa de futsal. Assim como aconteceu na Itália, o fenômeno da naturalização de atletas chegou forte também à Rússia. Os primeiros brasileiros pintaram no futsal russo no início da década de 90, e com passar dos anos e o sucesso rápido, eles se multiplicaram, tanto que atualmente sete dos 12 times da liga nacional russa contam com pelo menos um brasileiro no elenco.
E assim como aconteceu no 'País da Bota', os "boleiros tupiniquins importados" tiveram e continuam tendo grande importância no crescimento da modalidade por lá. Com a presença dos "brasirussos", a seleção evoluiu e conseguiu resultados expressivos nos últimos anos, como o vice-campeonato europeu, em 2012.
O paulistano Cirilo Tadeus Filho foi um dos primeiros a atravessar o Atlântico para jogar no leste europeu. O jogador, de 33 anos, está na Rússia desde os 22. Para ele, os brasileiros tiveram papel fundamental no processo de evolução do futsal russo. "Hoje, o campeonato russo é um dos mais fortes do mundo, e muito se deve à presença dos brasileiros. Com o tempo, eles acabaram pegando o jeito brasileiro de jogar, de driblar, de marcar", observa o jogador, que defende a seleção há sete anos, e já atuou em dois campeonatos mundiais e três europeus. "Para nós brasileiros, a liga russa é uma das melhores do mundo, inclusive em termos de estrutura", emenda Éder Lima, outro brasileiro, nascido em São Paulo, que joga na Rússia.
Por tudo isso, os brasileiros conquistaram o respeito dos russos. Mas nem sempre foi assim. Cirilo conta que sofreu com os protestos no início do processo de naturalização. "A gente sente um pouco isso até hoje, mas bem menos. Eu, por exemplo, estou há 11 anos na Rússia, então o pessoal já conhece, mas no início, não. Existia o questionamento dos jogadores russos que ficavam de fora da seleção, da imprensa. Foi uma fase complicada", relembra o jogador do Dynamo.
Éder Lima, de 29 anos, jogador do Gazprom, conta que a pressão continua grande em cima dos brasileiros. "A partir do momento em que você decide servir à seleção de outro país, é preciso dar um algo a mais. Nós somos muito cobrados, até mais que os próprios russos, e até concordo, pois se for para jogar igual russo não precisa de brasileiro", afirmou o jogador.
Adaptação
Além da resistência por parte dos russos, os brasileiros sofreram também com a adaptação ao país. E o principal problema não foi nem o frio. "Em casa, é normal por conta do sistema de calefação, então é tranquilo. Na rua é mais complicado, que tem que sair sempre muito bem agasalhado. O problema é que o inverno de lá é muito longo", diz Cirilo, que mesmo adaptado, admite já sentir saudades e considera voltar a jogar no Brasil em breve. "Nos primeiros anos, eu quis desistir, queria vir embora, mas minha mulher, que está comigo lá desde o começo, segurou a onda", rememora Lima, artilheiro do mundial da Tailândia, com nove gols.
Por outro lado, nem só de lembranças ruins foi feito o início. Na memória ficaram também algumas histórias engraçadas. "Um dia a gente foi no mercado, um monte de brasileiros juntos, e a gente queria um frango, mas não sabia como pedir. Aí um dos brasileiros pegou um ovo e apontava para a moça dizendo 'mama', 'mama'", lembra. "Hoje, a gente se vira bem, mas quando aperta um pouquinho ainda tem o tradutor do clube que nos ajuda bastante também. Não passamos vontade de nada", diz Lima, que tem um filho pequeno que já tem nacionalidade russa.
"As condições de vida que tenho lá na Rússia, pelo futsal não teria aqui no Brasil, e por isso sou muito grato a eles", agradece Lima, que atua no Gazprom com mais seis brasileiros, e foi convocado para a seleção pela primeira vez em 2010. Ele também já admite que a volta ao Brasil está próxima. "Sou muito apegado à família", justifica.
A parte ruim é enfrentar o próprio país, o que pode acontecer hoje na final do Grand Prix, em Maringá, a partir das 10 horas. "Quando o toca o hino é difícil, mas depois é um orgulho defender a seleção russa, que me proporcionou praticamente tudo o que tenho hoje", encerrou Cirilo, que já jogou contra o Brasil três vezes, a última na final do mesmo Grand Prix, em 2011.


