Se o depoimento de ontem de Ronaldo na CPI da CBF/Nike fosse uma partida, daria para dizer que o jogador estava bem preparado, jogou duro, deu entradas ríspidas nos adversários e marcou um bocado de gols. Tão logo sentou-se à mesa da CPI, Ronaldo fez a primeira reclamação. ‘‘A testemunha tem direito a um copo d’água? Só vocês têm água’’, disse, rindo. As demais críticas e respostas enfáticas não seriam tão engraçadas.
O atacante mostrou a linha de sua atuação ao ser questionado sobre quando o técnico Zagallo soube do mal-estar que ele sentiu no dia da final da Copa-98. Edmundo e um médico da seleção afirmaram que Zagallo foi informado minutos depois do problema ocorrer, mas o técnico disse aos deputados da CPI que só soube do ocorrido três horas depois.
‘‘Naquele momento, havia coisa mais importante para saber do que se o Zagallo foi ou não foi me ver’’, respondeu.
Depois de ouvir um discurso de Eduardo Campos (PSB-PE) sobre o objetivo da CPI em buscar a verdade, Ronaldo disse: ‘‘Espero que a minha verdade os satisfaça’’.
O jogador teve um atrito com Campos também quando o deputado começou a fazer uma pergunta antes que ele tivesse terminado uma resposta. ‘‘Qual é o meu direito? Quando eu posso falar? Eu ainda estava falando’’, disse o jogador, irritado.
Ele aproveitou a situação para criticar deputados que, em sua opinião, reclamaram de Zagallo quando o técnico depôs. ‘‘Quase todos os deputados deram sermão no Zagallo porque ele interrompeu (perguntas de deputados)’’, criticou Ronaldo.
Questionado sobre se investia mais no Brasil ou no exterior, Ronaldo não só não respondeu como sugeriu que investigações como a da CPI intimidam a ação de investidores no país.
Contrato com a Nike – O atacante Ronaldo, da Inter de Milão, foi intimado pela CPI da CBF/Nike a apresentar, no prazo de dez dias, cópia do contrato vitalício que mantém com a Nike. A mesma reivindicação foi feita à empresa patrocinadora. A decisão foi tomada durante seu depoimento à comissão, ontem, na parte em que ele conversou reservadamente com os parlamentares.
Em caso de recusa, há dúvidas quanto a competência da comissão em enquadrar o jogador e a empresa por crime de desobediência, o que implicaria na aplicação de multas e até na pena de prisão, de 15 dias a 6 meses. A incerteza dos parlamentares se explica pelo fato de se tratar de um contrato com cláusulas de sigilo protegidas pela legislação internacional.
O presidente da CPI, Aldo Rebelo (PCdo B-SP), explicou que o documento é importante para a investigação porque resolveria de uma vez por toda a polêmica sobre a interferência ou não da Nike na escalação de Ronaldinho, no jogo em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo para a França. O jogador disse que não houve nenhum tipo de interferência. Ele assegurou que resolveu entrar em campo porque se sentia bem ‘‘clinicamente e fisicamente’’, mesmo sabendo que tinha sofrido uma convulsão. Mas não convenceu aos deputados.

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