Berlim - A imobilidade e a apatia de Ronaldo, nos quase 70 minutos em que atuou na estréia da seleção brasileira na Copa do Mundo, contra a Croácia, não serão suficientes para tirá-lo do time para o jogo contra a Austrália, domingo, em Munique, mas tiveram um efeito bem negativo junto à comissão técnica e ao comando da CBF. O que mais incomodou nem foi tanto a má forma física e técnica do jogador, mas a sua impotência em campo. Ficou a impressão de que algo tirou sua concentração na Copa.
A desilusão ou a própria atuação do Fenômeno deflagrou uma espécie de contagem regressiva: Ronaldo terá dois jogos para convencer o técnico Carlos Alberto Parreira de que terá condição de enfrentar as oitavas-de-final. Isto significa evoluir técnica e fisicamente e, principalmente, mostrar-se mais atuante e ligado dentro de campo e fora dele.
Parreira já deu mostras de que terá paciência com o jogador, mas ela é limitada. Antes da Copa, em conversas reservadas, Parreira dizia contar com Ronaldo desde que o craque desse sinais de que estaria motivado para a competição. Não foi o que aconteceu nos primeiros dias de concentração para a Copa.
O técnico considera a primeira partida da fase de mata-mata a mais difícil da competição seja contra a República Tcheca, seja contra a Itália, os candidatos mais prováveis a se classificarem em primeiro ou segundo do Grupo E, de onde virá o adversário das oitavas-de-final. E não vai querer correr riscos.
Não é a primeira vez que Parreira se vê diante desta situação. Na Copa do Mundo de 1994, nos EUA, ele também apostou num talento e teve de buscar alternativas. Raí, astro do São Paulo bicampeão mundial em 91 e 92, era o jogador que o técnico queria ver conduzindo aquela seleção nos gramados americanos. O meia atuou as três primeiras partidas sem convencer. Foi substituído na terceira, no empate de 1 a 1 com a Suécia, e não voltou mais. Mazinho virou titular.
Um passe errado, uma falta recebida e uma finalização a gol. Isto foi tudo o que Ronaldo produziu contra os croatas e dispensaria o uso do computador do preparador físico Moraci Sant'Anna, responsável pelo levantamento. Foram os únicos três momentos dignos de registro do atacante na partida. Muito pouco na avaliação da comissão técnica.
Pode-se dizer que esta foi a segunda decepção que Parreira teve com Ronaldo. Na Copa das Confederações, o craque se recusou a participar da competição, atrapalhando os planos do treinador, que queria testar, concretamente, o quadrado mágico Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano. Robinho entrou e o esquema foi um sucesso. Mas sem o Fenômeno.
Os seguidos problemas físicos de Ronaldo impediram Parreira de ver o quadrado que idealizara. Impediram também uma preparação mais adequada do atacante, que nos últimos tempos teve esporádicas participações no time do Real Madrid.
Ao se apresentar à seleção, Ronaldo deu a impressão de que correria contra o tempo. Chegou a fazer bons treinos e alguns gols. Mas, após uma infecção e dois dias de febre, ele não conseguiu recuperar o ânimo inicial nem com a proximidade dos pais, que vieram visitá-lo. Nos treinamentos, já se podia antever a apatia mostrada na partida de estréia no Mundial.
Um integrante da comissão técnica diz que a preocupação na seleção é fazer Ronaldo recuperar o mesmo estado de espírito com que se apresentou há quase um mês a Parreira. Assim será capaz de voltar a ser o perigoso atacante de sempre.
Apesar de decepcionada com a primeira partida de Ronaldo na Copa da Alemanha, a comissão técnica tem esperança de que o jogador mostre sinais de recuperação nos próximos jogos. Ontem, mesmo de folga, ele passou a manhã no Hotel Kempinski, a concentração brasileira. Segundo alguns jogadores, estaria abatido. Não se sabe se pela substituição, se pelas vaias ou com a má atuação. Mas há um temor maior rondando a cúpula da CBF: o de que Ronaldo esteja apresentando sintomas de abatimento maiores do que se imaginava antes de ser convocado, como algum grau de depressão.

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