Marienfeld - O tom paternal deu lugar ao pragmatismo. Depois de, na semana passada, dizer que Ronaldo precisava tanto de carinho quando de preparação física, Luiz Felipe Scolari agora usa o argumento que o levou a apostar no atacante para o Mundial de 2002 quando muitos duvidavam de um retorno triunfal do jogador. Em entrevista exclusiva concedida ao Globo e ao jornal ''O Estado de São Paulo'', o treinador do penta e atual comandante de Portugal não só defende a permanência de Ronaldo na seleção brasileira como ainda diz estar torcendo pela recuperação do jogador, ainda que a chave da Copa tenha a possibilidade de um encontro entre brasileiros e portugueses nas semifinais.
''O Ronaldo, quando você precisar dele, seja amanhã ou depois de amanhã, decide. Rezo a Deus para que Portugal não cruze com ele. (risos)''
Agência O Globo: Você previu uma Copa com poucos gols por causa da ênfase na disciplina tática das equipes com menor poder de fogo. Isso parece ter funcionado com os craques neste Mundial até agora, não?
Luiz Felipe Scolari: Os jogadores que têm qualidade estão atuando bem. O Brasil, por exemplo, tem seus jogadores que de alguma forma estão desequilibrando. O problema é que todo mundo espera que A, B, ou C façam jogadas de gênio. E não é assim tão fácil. Hoje o futebol tem muita marcação, muito sistema defensivo. Nessa Copa, por exemplo, surgiram duas ou três goleadas milagrosas, porque o restante sempre é 1 a 0, 2 a 0 no máximo. Os jogadores estão fazendo o melhor dentro de campo do que é definido pelos seus técnicos.
Agência O Globo: Esse seria também o caso do Ronaldo?
Scolari: Eu vejo ele numa espécia de crescente. Acho que Parreira faz bem em continuar com o Ronaldo, em dar as condições a ele de continuar jogando e trabalhando o dia a dia com os preparadores físicos e o doutor Runco. Por que o Ronaldo, quando você precisar dele, seja amanhã ou depois de amanhã, decide. Digo isso por experiência. De vez em quando ele me irritava quando no treino ficava lá parado, mas quando ia para o jogo, uma chance era gol dele. Nunca tive dificuldades com o Ronaldo e torço muito por ele. O Ronaldo é um cara fantástico, teve dificuldades no Real Madrid nos últimos meses, mas daqui a uma semana ou 10 dias, estará melhor. Essa história de dizer que ele está gordo só deixa o Ronaldo com mais raiva. Tomara que a gente (Portugal) não cruze com ele. (risos)
Agência O Globo: Mas mesmo jogadores excepcionais fora de suas melhores condições físicas deveriam ter lugar garantido?
Scolari: Depende da qualidade deles. Se é um jogador que te dá confiança e que, em determinados momentos, é decisivo, ele tem lugar. Mas aí você precisa fazer com que o grupo entenda que aquele jogador está passando por um momento ou outro, mas que é importante para o time. E deixar ele à vontade. O craque é importante numa seleção ou num clube, mesmo não tendo condições. Mas tem que haver trabalho para que todos saibam que o mau momento poderá ser superado num lance.
Agência O Globo: E qual é o antídoto?
Scolari: Se não há espaço, é aí que vale a grande capacidade individual do jogador, que num ou noutro lance define o jogo. Essa foi uma das virtudes da seleção brasileira em 2002. Quem tem capacidade individual para superar a marcação será o vencedor.
Agência O Globo: Como você avalia esses três anos na seleção portuguesa?
Scolari: Portugal era uma seleção que vinha de um campanha não muito boa no Mundial de 2002 (fora eliminada na primeira fase) e que precisava de uma reformulação, de um trabalho novo que estaria começando do zero. Havia ainda a coisa de uma nova cultura, da vida na Europa. Acima de tudo, ganhei vivência, e conhecimento. Já tenho muito mais experiência e condições para dirigir um time em qualquer lugar do mundo. E meu currículo de seleção portuguesa é muito bom. Há aquela idéia de que o Felipe gosta de jogador retrancado, mas Portugal foi a segunda melhor equipe da Europa em número de gols nas Eliminatórias e teve o artilheiro.
Agência O Globo: Vê seu trabalho abrindo mais portas para os treinadores brasileiros?
Scolari: Se Portugal fizer um bom Mundial, de repente chegando entre os quatro melhores, penso que as portas se abririam mais para o treinador brasileiro. E acho que nossos treinadores têm grande capacidade e qualidade. No Brasil, a exigência é muito grande, enquanto ela se divide mais na Europa: aqui, os times disputam não apenas o título, mas vagas em competições como a Liga dos Campeões, em um terceiro lugar pode valer uma renovação de contrato. No Brasil, quem não for campeão está morto. Mas esse ambiente competitivo é um grande handicap para se chegar na Europa.
Agência O Globo: Há quem diga que os treinadores se julgam mais importantes do que deveriam...
Scolari: O técnico faz sua parte. Se não tiver comando disciplina, não souber treinar, aí vira pelada. O Parreira uma vez falou em ser um gestor de egos, e é verdade. Tudo funciona como uma grande empresa. Técnicos são importantes, sim. Não são eles que chutam a bola para dentro, mas eles ajudam no contexto geral. São psicólogos e pais. No campo, o craque é quem resolve, mas alguém atrás do craque tem que orientar. Se você der toda autonomia, seu time não vai ganhar.
Agência O Globo: Por que Vanderlei Luxemburgo não deu certo no Real Madrid?
Scolari: Ah, isso eu não tenho como saber. Mas presumo que seja porque o Real tem uma forma diferente de trabalhar que outros clubes. É muito comercial, empresarial.
Agência O Globo: E você tem saudades do futebol de clube?
Scolari: Às vezes sinto falta, pois no clube tem-se a semana preenchida com situações de jogo, enquanto meu trabalho agora é mais burocrático. A seleção também te dá mais visibilidade e hoje tenho mais tempo para minhas palestras e uma maior convivência com minha família. Não quero dizer que não voltaria a um clube, mas teria que me readaptar depois de cinco anos em seleções. Recebo propostas praticamente todos os dias, mas só vou tomar qualquer decisão depois da Copa do Mundo.
Agência O Globo: Por falar em Mundial, qual é a pretensão real de Portugal no torneio? Você se sente tentado pela marca de Oto Glória?
Scolari: Pressiono e cobro dos jogadores que a gente ao menos chegue entre os oito. Depois é outro salto. Mas é interessante ver como o Eusébio, que era daquele time de 1966, está aqui torcendo para que aquela equipe seja superada. Ele é maravilhoso nesse sentido. Tem carisma, os jogadores só o chamam de king. O respeito dele pelo Oto Glória fez com que ele me aceitasse desde o começo e me defendesse.
Agência O Globo: Uma ida às semifinais poderia colocar o Brasil no caminho de Portugal. Como ficaria o seu coração?
Scolari: Enquanto não cruzarmos, sou o primeiro torcedor do Brasil. Nunca vou esquecer o que vivi com a seleção. Se nos cruzarmos, o Brasil para mim não existirá, não terei vínculo. Vou dominar essa situação no peito normalmente.
Agência O Globo: É verdade que você saiu da seleção por não se relacionar bem com a CBF?
Scolari: Não continuei porque fui contratado para uma situação, que era a de ir para o Mundial. Tinha um prazo. Eu pensava depois em trabalhar com a seleção Sub-21 também, e isso no Brasil ainda não é bem aceito pela imprensa. Tanto o ambiente com a CBF era bom que eu mesmo perguntei ao Ricardo Teixeira o que ele faria no meu lugar. Ele disse que não ficaria, que eu já tinha sido campeão, coisa e tal. Continuo bom amigo do Ricardo e acredito que deixei uma porta aberta. E também precisava ficar alguns meses fora do ar naquele momento. Vivi um ano na seleção brasileira em que perdi muito cabelo.

mockup