São Paulo - Ele tem o dom. Mas também tem a intuição: sabe fazer de seu corpo uma arma específica para, naquele pequeno espaço na área, marcar gols neste Brasileirão já fez 16.. E assim se passaram os anos.
De personalidade única, centrado em sua capacidade de fazer o que interessa no futebol, em boa parte do tempo Romário de Souza Faria 40 anos em 29 de janeiro treinou como quis, com a permissão de dirigentes e técnicos. E brilhou.
''Talvez se tivesse me comportado como atleta na minha carreira, estaria em melhor forma física. Mas com certeza não teria sido tão feliz'', disse, em 2004. Mas como que Romário, um individualista em campo, conseguiu ser um dos grandes atacantes do mundo em um esporte coletivo? Algumas pistas dessa magia estão muito bem guardadas: nas células de seu corpo.
O ''Baixinho'' extrapolou sua própria profecia em quase uma década, quanto à carreira profissional. Mesmo andando pelo fio da navalha, vivendo à plena, nas praias e nas noites cariocas. Nestes últimos anos, tornou-se e foi tratado como uma ''espécie em extinção'', fora de época quando se valoriza o futebol coletivo, o atleta polivalente. Ao contrário disso, Romário joga para ele. E é um especialista.
Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista do Centro de Medicina e Atividade Física do Esporte (Cemafe), ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), chama a atenção para o tipo físico de Romário, que até lhe rendeu o apelido de ''Toddynho'', e diz, ''por intuição'', que o atacante teve menos problemas sérios no joelho porque é atarracado (na média, 72 quilos para seu 1m68). Com centro de gravidade baixo, pernas curtas e musculatura forte, garante estabilidade, firmeza. É menos vulnerável. Além disso, foi aprendendo a ''malandragem'' de escapar de marcadores mais duros.
Assim, apesar das duas artroscopias, Romário nunca teve um problema mais sério no joelho que, segundo o fisiologista, ''é o calcanhar de Aquiles na questão da longevidade da vida de atleta''.
José Luís Runco, ortopedista da seleção brasileira que fez uma artroscopia no joelho esquerdo de Romário há exatos dez anos, lembra de como o atacante tem rápida recuperação e o quanto é privilegiado em fibras musculares rápidas, para jogadas de arranque. ''Ele, ninguém pega. Fora a qualidade técnica.''
Mas Turíbio lembra que, treinando quando quer, Romário se arrisca a contusões musculares como as que sofreu na coxa, na panturrilha. ''É preciso um condicionamento físico mínimo, senão o jogo vira agressão ao atleta o princípio da lesão. O músculo não está adaptado para tolerar esforço.''
Romário ainda foi sábio, diz Turíbio, para sair à noite mas não usar drogas. Ter muitas mulheres, mas dormindo bem. ''A mais intensa relação sexual gasta menos energia que um inocente aquecimento.''
Pedindo para filmar Romário individualmente, para se ter uma leitura de padrão de movimentos, Turíbio descobriu que o jogador ''é completamente atípico, até do padrão de ataque''. Os dados: ''Ele corre metade da distância do atacante normal e dá o dobro de passes curtos. É, portanto, um especialista. Tem um padrão de movimentos próprio, que é só dele.''

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