São Paulo - Roberto Carlos, aos 40 anos, inicia uma nova carreira, a de treinador, após um flerte com a função de cartola. Porque a história como jogador, longeva e vencedora, terminou na Rússia, no Anzhi, em 2012. "Vivi 25 anos dentro do campo à base de emoções, diretor não é para mim", disse, já de volta ao Brasil após regressar da Turquia, onde acabou de assinar contrato de técnico com o Sivasspor.
O ex-lateral-esquerdo acompanha do Brasil a Copa das Confederações. Ele é comentarista de uma emissora de televisão mexicana. Na entrevista a seguir, Roberto Carlos dá sua opinião sobre o momento da seleção brasileira, ainda apontada por ele como favorita à conquista agora e na Copa do Mundo. E garante, com a bagagem de quem conhece Felipão, que Ronaldinho Gaúcho e Kaká vão disputar o Mundial de 2014. "O Felipão faz tudo pensado, pode ficar tranquilo, eles estarão na lista da Copa do Mundo. Ele já conhece os dois", afirmou.

Como você vê a seleção que disputa a Copa das Confederações?
Vejo que o Brasil está fazendo uma ótima Copa das Confederações e, claro, montando um time para a Copa do Mundo. Podemos chegar à final da Copa das Confederações e ano que vem temos tudo para chegar forte na Copa do Mundo, como sempre chegamos.

Após Dunga e Mano Menezes, a dupla Felipão e Parreira era a melhor solução para a seleção?
São pessoas que já conhecem bem os jogadores e sabem o que têm de fazer. Eles já foram vencedores com a seleção. É montar o time e tenho certeza de que seremos campeões.

Após sua saída da seleção, houve um hiato na lateral esquerda. Isso está superado?
Sim, demoramos muito para encontrar um lateral-esquerdo, mas hoje acho que estamos bem servidos, tanto com o Marcelo como com o Felipe Luis. Hoje não teremos dificuldades nessa posição.

Em 2010, acha que você tinha condições de ter ido à Copa?
Pelo que fiz no Corinthians em 2010 tinha total condição de estar entre os dois nomes na lista, talvez não como titular, mas poderia ter feito parte daquele grupo.

Acha que pesou contra você ainda a imagem da derrota para a França, em 2006? Por isso o Dunga riscou sua geração daquela convocação?
Todo mundo estava esperando um momento de deslize nosso para eliminar a gente. Infelizmente é uma coisa normal no futebol brasileiro, isso não vai mudar nunca. Por isso eu desejo sorte a esse novo grupo da seleção brasileira e que esse grupo faça história, porque se perder já tem que mudar de novo, é assim.

Mas o Felipão também não convocou o Ronaldinho Gaúcho. Na sua opinião, ele ainda tem espaço na seleção?
Acho que na Copa do Mundo, ano que vem, tanto ele quanto o Kaká vão estar no grupo que vai disputar a Copa do Mundo porque Copa do Mundo é diferente de Copa das Confederações. Os dois têm espaço na seleção, com certeza. O Felipão faz tudo pensado, pode ficar tranquilo que eles estarão na lista da Copa do Mundo. Ele já conhece os dois.

Neymar vai jogar no Barcelona. Gostaria que ele fosse para o Real Madrid, pela sua relação com o clube de Madri?
Queria que ele fosse para o Real Madrid, mas entendo que a decisão é familiar. Desejo sorte a ele, que ele seja feliz nessa nova etapa porque agora é que vem o que é bom. Se ele quiser ser o melhor do mundo, vai depender dele, da adaptação dele. Ele tem tudo para ser o melhor do mundo, para ter o mesmo sucesso no Barcelona que ele teve no Santos. Só que Europa não é igual ao Brasil. O futebol europeu vai obrigar o Neymar a aprender (taticamente), muda um pouco em relação às nossas características. Mas em um, dois meses ele aprende e vai fazer muita coisa boa.

Por que você decidiu virar treinador?
Fiquei praticamente dois anos no Anzhi e quando fui diretor (depois de parar), não tive tanto contato com jogador, com bola, mas sim controlando o time... E isso não me fazia muito bem porque eu vivi 25 anos da minha carreira dentro do campo, à base de emoções. Acho que diretor não é para mim, não me sentia à vontade.

Você fez algum curso ou estágio com algum treinador?
Fiz na Espanha. Tirei minha licença de treinador e conversei com alguns treinadores com os quais trabalhei como jogador. Falei com o José Mourinho, com Guus Hiddink e com o Zico. Para o Mourinho disse que seria segundo treinador (auxiliar técnico), e ele me disse que não, que para mim seria melhor começar como primeiro treinador pela minha experiência.

Como e por que surgiu o convite do Sivasspor?
Eu tinha falado com um empresário da Turquia e esse empresário me disse que o presidente do Sivasspor queria saber se eu tinha licença de treinador. Quando falei que sim, falaram comigo diretamente. Só que ainda tinha contrato com o Anzhi e disse que depois voltaríamos a falar. Foi muito rápido. Depois acertamos tempo de contrato, será de dois anos.

Qual é a ambição do seu clube?
A diretoria quer e pensa que podemos conquistar uma vaga na Liga Europa, mas vou tentar colocar o time na Liga dos Campeões. Acho que é possível. O futebol turco hoje está melhor e até mais equilibrado do que quando eu estava jogando lá (no Fenerbahçe). Tem mais qualidade, vai ser difícil chegar entre os três primeiros, mas vejo como algo possível ir à Liga dos Campeões.

Como vai jogar a equipe dirigida por Roberto Carlos?
Depende muito da qualidade do time. Primeiro eu contratei um estafe técnico bom e a partir daí a gente vai conhecer melhor o time, os jogadores. Depois vamos montar o sistema. Penso no 4-2-3-1 e gostaria de mudar um pouco as características do futebol turco, que é de muita marcação e correria. Nos cinco primeiros jogos devo testar outros sistemas para sentir qual é o melhor para minha equipe.

Pensa em levar algum jogador brasileiro ao Sivasspor?
Quero levar dois brasileiros, um com experiência. Estou pensando no Cicinho (lateral-direito, ex-São Paulo e Real Madrid), e um brasileiro mais jovem, que eu estou procurando aqui na Capital. Quero um jogador de qualidade. O time está com dinheiro para investir.

Você encerrou sua carreira de jogador atuando na Rússia. Valeu mesmo a pena?
Todo mundo sabe que eu queria ficar no Corinthians, mas não precisava passar por situações desagradáveis. Por isso o Anzhi apareceu na hora certa.

Mas você sofreu com o racismo lá. Foi o pior momento que passou jogando futebol?
Depois pediram desculpa. Não é que foi desagradável, o problema é que foi comigo e era um jogo que estava sendo transmitido para toda a Rússia e causou uma notícia forte no futebol russo. Mas depois contornei tudo, não foi isso que me fez sair da Rússia. Saí de lá porque eles nunca me deram um cargo no qual eu poderia me sentir importante.

Você fez parte do time do Palmeiras que saiu da fila, em 1993, há 20 anos. Como analisa o momento do clube?
É uma pena o Palmeiras estar na segunda divisão. Talvez a falta de organização tenha levado o clube a ficar nessa situação. Agora estão tentando retomar aquela fase boa. Depois o time volta para a primeira divisão. A gente torce muito para que um time grande como o Palmeiras, como o Corinthians, não passe por isso.

Quer dirigir um clube no Brasil?
Tudo é possível. Deixa começar minha carreira primeiro. Quem sabe um dia treine um time no Brasil?

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