São Paulo - Rivaldo sempre foi um homem de poucas palavras. Mesmo assim, tem mostrado que as utiliza com eficiência. Afinal, convenceu Luiz Felipe Scolari a trocar Londres por Tashkent, a capital do Usbequistão, onde treinará o Bunyodkor, time que defende desde 2008.
Aos 37 anos, o meia é cada vez mais dirigente. Além de consultor da equipe usbeque, também é presidente do Mogi Mirim, equipe que o colocou no radar do futebol. Em entrevista à Agência Estado, feita em duas partes, por e-mail, Rivaldo falou de suas atividades atuais e de um sonho: encerrar a carreira no interior paulista, em 2012, quando terá 40 anos.
Agência Estado - Qual sua participação na contratação do Felipão? E o que significa tê-lo no comando do time?
Rivaldo - Minha participação foi muito importante, afinal, além de jogador, sou o homem de confiança do presidente (Isok Akbarov, magnata do ramo petroleiro). Ele me perguntou sobre o Felipão e falei que era o treinador ideal para o nosso projeto e que poderia tentar convencê-lo. É uma honra trabalhar novamente com ele, afinal, foi quem me deu a possibilidade de realizar o sonho de ser campeão do mundo, quando todos duvidavam de mim (Rivaldo estava machucado). E o mais importante: somos bons amigos.
AE - A negociação durou alguns meses. O que foi definitivo para que o Felipão dissesse o sim?
Rivaldo - Nosso projeto é espetacular, empolgante (o Bunyodkor está investindo na infraestrutura: constrói seu estádio e um CT com sete campos). Sei que, junto comigo, ele ajudará no crescimento do futebol do país.
AE - Quais são os próximos planos do Bunyodkor? Partirá para contratações de jogadores importantes?
Rivaldo - Queremos vencer o Campeonato e a Copa nacionais e, principalmente, a Copa dos Campeões da Ásia (que dá vaga para o Mundial). O presidente pensa longe, quer que sejamos um dos maiores times da Ásia e já tem em mente trazer jogadores e técnicos de nome. Estamos começando um projeto de base, com garotos daqui. Este clube tem quatro anos e teve um crescimento espetacular. Hoje o mundo inteiro sabe do Usbequistão e Bunyodkor. Mas temos muito a fazer.
AE - Fora a questão financeira, por que apostar no futebol de um país desconhecido? Como são a vida e o futebol usbeques?
Rivaldo - Gosto de desafios. Sei que foi uma porta que Deus abriu para mim e que futuramente servirá para muitos. Com o apoio da família, tudo fica mais fácil. A cultura é muito diferente, mas o povo é humilde, carinhoso, e isso faz com que eu me sinta em casa. O futebol está crescendo muito. Todos os clubes estão se reforçando. Com certeza será um ótimo campo de trabalho para muitos jogadores estrangeiros.
AE - Você é presidente do Mogi Mirim desde o início do ano. Por que aceitou o desafio?
Rivaldo - Porque tenho muito carinho pelo Mogi Mirim, pela cidade e pelo ex-presidente Wilson Barros (que morreu em 2008). Apesar de estar muito longe, meu coração está sempre presente.
AE - Como adaptar a rotina de jogador de futebol no Usbequistão e dirigente de futebol no Brasil?
Rivaldo - É tranquilo jogar no Usbequistão. E eu adoro jogar, não importa aonde. Mas ser presidente não é muito fácil, com tantos compromissos. É um desafio que espero que dê certo.
AE - O Mogi só escapou do rebaixamento na última rodada. Durante o Paulista, você deu uma bronca pública em seus jogadores, por meio de um texto publicado no site do clube. Falou de assuntos delicados, como envolvimento de empresários e falta de empenho. O que te levou a mandar aquela mensagem?
Rivaldo - Lá também havia um desafio: que, se alguém quisesse, poderia assumir o clube. Foi um momento de desespero. Tinha medo da Segunda Divisão, por isso desabafei. Como continuo jogando futebol, entendo que em alguns momentos você não pode ser bonzinho. Sei que para chegar a um clube grande você precisa passar por momentos difíceis, porém, nunca ter medo de jogar futebol. E, naquele momento, era o que parecia estar acontecendo. Deixei meu cargo à disposição principalmente para os críticos. Em vez de verem que eu estava fazendo o meu melhor, só falavam mal. Isso me deixou muito chateado. Mas sabia que ninguém teria a coragem que tenho.
AE - Como foi acompanhar os jogos pela internet e pelo telefone?
Rivaldo - Muito difícil porque não é a mesma coisa. Em alguns momentos, falava com meu filho, outros com o Wilson (Bonetti, vice-presidente).
AE - Você tem contrato com o Bunyodkor até o fim de 2011, quando terá 39 anos. Ainda pretende jogar um pelo Mogi?
Rivaldo - Nunca pensei jogar até 39 anos, mas Deus está me dando saúde e me protegendo de lesões graves. Se estiver com 50% das condições que estou hoje, posso jogar o Campeonato Paulista pelo Mogi Mirim. Quem sabe ser presidente, jogador e capitão em 2012?
AE - Depois da brilhante atuação na Copa do Mundo e 2002, acha que faltou uma partida de despedida da seleção?
Rivaldo - Se o Brasil fizesse parte da Europa, com certeza teria uma partida de despedida. Não só para mim, mas para outros grandes jogadores da história do futebol brasileiro. Mas nunca me preocupei com isso, porque não devo nada para a CBF e nem a CBF deve nada para mim. Como o profeta Salomão, o homem mais sábio do mundo até hoje, disse: ''Tudo isso é vaidade, tudo isso é ilusão''.

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