São Paulo - Mãe é mãe, mas nem dona Marluce assiste a todos os jogos do filho Rivaldo pelo São Caetano na disputa da Série B do Campeonato Brasileiro. Os mais chegados dizem que ele continua a jogar aos 41 anos só pela "cabeça dele". Ele sempre foi assim, de opinião. Rivaldo deu de ombros para o marketing e as badalações, escolheu Angola e Usbequistão, entre outros palcos insólitos, e agora luta para não ser rebaixado. Mesmo com a aura de pentacampeão com Felipão em 2002 e de melhor jogador do mundo com o Barcelona em 1999.
Amigos acham que ele não precisaria passar por isso. Há alguns dias, o São Caetano levou seis da Chapecoense e Rivaldo entrou no segundo tempo. Ele não está alheio à campanha, compra briga no vestiário e vive cada jogo como se ainda estivesse no Barcelona. Não quer que o time do ABC repita no Brasileiro o fiasco do rebaixamento do Campeonato Paulista – com a derrota para o Avaí, por 2 a 1, na terça-feira, o Azulão ocupa a vice-lanterna da competição nacional. "É difícil explicar o que está acontecendo com a equipe. Não temos elenco para isso. Falta vergonha na cara", esbravejou.
A frase de Rivaldo chama a atenção pelo conteúdo, pela forma e pelo ineditismo. A timidez sempre foi um dos seus diferenciais. Avesso ao marketing e aos louvores que fazem os astros levitarem acima dos mortais, o meia criou sua noção própria de sucesso. "Rivaldo nunca trabalhou bem o marketing pessoal. Ele sempre tomou decisões que faziam bem para ele sem se importar com as questões mercadológicas", avaliou Fabio Wolff, professor de Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios.
Na visão do técnico do São Caetano, Sérgio Guedes, a introspecção é um ponto em que o quarentão poderia melhorar. "Estou instigando isso nele. Ele se impõe pela história, pela qualidade técnica, mas precisa falar. Quando ele fala, todos ouvem", contou o treinador.
A escolha dos clubes também vai na contramão e subverte a noção de que o craque tem de parar por cima. Antes do São Caetano, Rivaldo viveu altos e baixos na Grécia e Usbequistão. No São Paulo também não engrenou. "Sou um defensor de que temos de sair do palco quando ainda somos aplaudidos de pé", disse José Edilson, amigo de infância. Obviamente, o conselho entra por um ouvido e sai pelo outro. "Tenho admiração pessoal pelos atletas que continuam tentando. Eles mostram que a busca pelo prestígio é secundária", contrapôs a professora Clarisse Setyon, coordenadora de MBA em Marketing Esportivo da ESPM.
Nas andanças de Rivaldo, faltou dizer que ele jogou em Angola em 2012. No país que ocupa a 89ª posição no ranking da Fifa, ele deu mais do que recebeu. "Ele ajudou os colegas a jogar com qualidade, sem rodeios nem fintas desnecessárias, como é característico do futebol nacional. Deixou saudades", analisou Teixeira Cândido, editor de Esportes do jornal angolano O País.
Destinos extravagantes não estão nos próximos passos. Depois que concluir o contrato com o São Caetano, o meia pretende se apresentar em janeiro ao Santa Cruz, clube no qual começou a carreira e que completa 100 anos no dia 3 de fevereiro de 2014. Depois, o outro jogo festivo será em 19 de abril, quando Rivaldo completará 42 anos. Aí sim deve fazer o jogo da despedida.

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