''Se alguém cair será arrastado para aquele canto, ao lado da pedra maior. A saída é mergulhar, nadando para o lado direito, e esperar pelo resgate'', indicava o instrutor Tiago Paviani, alertando para o perigo de ficar preso entre as pedras pela forte correnteza num dos melhores trechos do rafting do Rio das Antas. O ponto é conhecido como Garganta do Diabo. Os segundos que antecedem, já nos primeiros 50 metros dos sete quilômetros do percurso, nos envenenam de adrenalina! A manobra consiste em acompanhar uma curva fechada do rio, em 90 graus, no ritmo alucinante das águas. A batida do bote na enorme pedra é inevitável. Agarrados com os pés entre os assentos infláveis, todos remam muito para manter o equilíbrio. O instrutor Jones, que ditava o ritmo na proa, jogou a metade do corpo segurando firme o remo na água. A passada foi determinante para que o barco fizesse a curva. Explosão de água, solavancos, porrada na pedra... É emoção para valer!! A classe desta corredeira é de 3 +, numa escala que vai do 1 ao 6 ( onde o seis é impossível)
Estamos nas imediações de Nova Pádua, a 100 km de Porto Alegre. Cidadezinha pitoresca encravada na extraordinária Serra Gaúcha. Com forte sotaque, herdado pelos seculares dialetos italianos, o bote inflável vai comandado por três instrutores da agência local Mad River, os 'rafteiros' Tiago, Jones e Jean. Ajudo na remada com o divertido amigo 'bebe-água', Ricardo Baggio.
Felizmente ninguém caiu na Garganta do Diabo. A seguir, paramos um pouco num remanso (zona de águas calmas), amarramos o bote e nos refizemos do susto pulando de um salto de cinco metros de altura. A água gelada deste inverno gaúcho nos levou direto para os remos. Este percurso tem duração de duas horas e passa por mais de dez corredeiras intercaladas por longos remansos, trechos necessários para retomar o fôlego e maravilhar-se com o cenário natural do vale. O bote corre e nos leva pelo labirinto do rio para as entranhas da serra. O verde aqui é presente... Dádiva da natureza! O som dos cinco remos afundando na água ao mesmo tempo soma-se aos ruídos da floresta. A expectativa de todos volta-se para o encontro de algum animal silvestre. ''Onde estão as antas?'', pergunto. Jean nos conta sobre a época da caça predatória que dizimou este bicho, que outrora povoara intensamente a região e batizara o rio.
E o bote virou...
A paz do remanso foi quebrada pelo barulho surdo da próxima corredeira, a preferida dos instrutores, a do 'S'. Conforme o nível do rio, a classe varia entre 2 a 6. Como estávamos com 30 cm acima do normal, a brincadeira iria render bons momentos: como o próprio nome sugere uma curva segue a outra em sentido oposto e confunde toda a gravidade da 'carga'. Tiago colocou a culpa em mim, pois com o impacto do primeiro degrau, voei para o outro lado excedendo o peso para a direita... Fatal virada! Não sobrou um; todo mundo para a água. Mergulhamos fundo com o refluxo (redemoinho) da corredeira, voltando à tona metros mais à frente. Primeira dica: Não entre em pânico e nade, com os pés e barriga para cima, em direção ao bote. É nele o ponto de encontro. Tudo e todos estão em movimento, acompanhando o fluxo líquido. Enquanto isso, Jean sobe no barco e com um remo enfiado numa corda lateral o desvira, empinando radicalmente. Tripulação a bordo, novamente. Gritaria contagiante alivia a cabeça... No Rio das Antas, o rafting é impressionante, mas é seguro. As corredeiras mais pesadas estão distantes, entre si. Numa virada como essa, certamente perderíamos o barco se não existisse a zona de remanso, próprio para recompor a equipe no bote. O trajeto parece ter sido desenhado sob encomenda para a atividade.
Outras corredeiras foram exploradas intensamente na descida: a Comprida, com 300 metros de extensão; a Descarga, um ondão irado, mais parece um morro líquido no meio do rio; a do Surf, quando brincamos com o bote parado no meio da corredeira, a água passa por baixo a milhão; a Vira-vira, o barco ganha impulsão e passa empinando pelas várias 'lombadas' do caminho; e a Caninana, conhecida como perigosa e traiçoeira: ''quando pensamos que já passou, ela vem e dá o bote'', explica Tiago e a aponta como o único trecho que podemos sair com alguns hematomas nas pernas e braços, devido a grande quantidade de pedras espalhadas no local. Vale lembrar que o uso de capacete e colete salva-vidas é obrigatório. No inverno a roupa de neoprene, imprescindível. Todo o material é oferecido pela operadora. Basta experimentar.
Na saída do rio, numa pequena prainha que dá acesso a uma estradinha de terra, onde nos esperava a caminhonete de apoio, nos encontramos com a desagradável surpresa de uma fogueira onde algum ignorante colocou pneus para queimar. A fumaça negra e o terrível cheiro de borracha contaminaram o ambiente. Como pode? Após duas horas de aventura, alimentando o espírito, renovando o ar dos pulmões, nos chocamos com esta vergonha...

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