Reservas são atração em treino
Leverkusen - Na chegada ao estádio de Bergish Gladbach, os jogadores foram recebidos com colar havaiano, bebidas variadas e a bola oficial da Copa sobre a mesa de entrevistas. A aparente acolhida soou como descortesia. Os produtos foram retirados por se chocarem com os patrocinadores da CBF. Na Copa, o valor de uma marca é relativo.
Para quem consome futebol-arte, os primeiros jogos do Brasil serviram como propaganda enganosa. Mas pela classificação antecipada e suas tradições, a seleção é a melhor vitrine. No lugar da decepção da véspera, o dia seguinte aos jogos exibe a forma exuberante de Fred, Robinho e Juninho Pernambucano. No treino dos reservas, a campanha do hexa é capaz de cativar seu público outra vez.
Dos 12 jogadores que estavam em campo ontem, Gilberto Silva foi pentacampeão do mundo como titular e Rogério Ceni, como reserva. Ao lado de Mineiro, o goleiro do São Paulo tem ainda um título mundial de clubes no currículo. Robinho e Cicinho são titulares do Real Madrid. Juninho levou o Lyon ao pentacampeonato francês e à elite do futebol internacional, da qual o recém-chegado Fred agora também faz parte. Para o técnico Carlos Alberto Parreira, os reservas do Brasil seriam um time forte na Copa do Mundo.
Juninho é mais cauteloso ao fazer o próprio comercial. Apesar de exaltar a qualidade do produto, o apoiador não garante satisfação num ambiente tão concorrido. ''Os reservas podem jogar e até ganhar'', disse a respeito do próximo jogo, dia 22 contra o Japão, em Dortmund. ''Mas pela falta de ritmo, também há risco de perder. O nosso segundo time poderia até ser melhor do que outras seleções, mas esta Copa está mostrando que não haverá facilidade.''
Diferentemente da publicidade, no futebol não se deve apontar as fragilidades do maior concorrente. Ao contrário, Juninho prefere elevá-lo à prateleira mais nobre. ''A Argentina apresentou o melhor futebol da Copa até o momento.''
O favoritismo, para ele, é uma marca de fantasia. O prenúncio de bom futebol, repleto de gols e cores festiva, agrada ao torcedor. Mas o rótulo da credibilidade só vem com o título. ''No Brasil, a opinião oscila entre os extremos. Jamais vi nosso time tão favorito como se passou a acreditar após a Copa das Confederações'', disse, antes de lembrar que o Brasil quase foi eliminado pelo Japão naquela ocasião. ''Só se ganha Copa com sofrimento. A Argentina começou bem, mas se a gente ganhar todas de 1 a 0 seremos os campeões.''
Cicinho também não se preocupa em enfeitar a realidade. O lateral reconhece a necessidade de evolução do time, mas não vê problemas em vencer sem convencer. ''Sabemos que temos condições de melhorar, mas estamos felizes pelas vitórias. Se formos campeões, ninguém vai lembrar se jogamos feio ou bonito.''
Parreira costuma dizer que não há nada mais subjetivo do que a beleza. Num livro de filosofia, descobriu que, para uma sapa, seu filho verde com olhos enormes é o que há de mais belo. Assim como as campanhas publicitárias e do Brasil na Copa, é o público que faz suas escolhas. Depende do ponto de vista. Se o time titular trouxe dúvidas, é melhor encarar o otimismo com reservas. (Agência O Globo)





