Remando para o ouro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Wilhan Santin<br> Reportagem Local 
A imagem de concentração das atletas, que mantêm um olhar fixo para o horizonte e fazem os caiaques deslizarem rapidamente, com remadas firmes, precisas e sincronizadas pelas águas da Represa de Xavantes, deixa a impressão de que as próximas páginas da história da canoagem feminina brasileira devem ser recheadas de conquistas e alegria. A cena descrita acima foi presenciada pela reportagem da Folha durante um treinamento da seleção brasileira feminina permanente de canoagem de velocidade, que faz uma ''pré-temporada'' em Ribeirão Claro (24 km a leste de Jacarezinho) até o dia 25 de fevereiro.
As nove atletas e o treinador Alvaro Koslowski estão concentrados no pacato distrito de Cachoeira do Espírito Santo, às margens da Represa de Xavantes, onde as meninas treinam diariamente para realizar, no Rio de Janeiro, o sonho da conquista da primeira medalha da canoagem feminina brasileira nos Jogos Pan-Americanos.
O treinamento no Paraná é mais um passo da caminhada para a conquista da inédita medalha, que começou em 1991 no Pan de Havana, em Cuba, quando a canoagem brasileira participou pela primeira vez. Em 2004, quando se formou a seleção feminina permanente e a estrutura de trabalho para as meninas melhorou bastante, os passos dessa caminhada ficaram muito mais largos. Antes, o mesmo técnico dos homens, que já ganharam 12 medalhas em Pan-Americanos, também se encarregava do treinamento do time feminino. Agora, Koslowski trabalha exclusivamente com as mulheres.
A definição de uma sede oficial para a seleção feminina também foi muito importante. Atualmente, as atletas moram em Caxias do Sul (RS), onde existe uma parceria da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCA) com a prefeitura da cidade e com a Universidade de Caxias do Sul (UCS), a qual oferece bolsas de estudo para as atletas adultas, e também colabora com a infra-estrutura de preparo e treinamento do grupo. ''As mulheres saíram do segundo plano para condições de igualdade'', diz Koslowski.
Das nove meninas que estão treinando em Ribeirão Claro, cinco são da categoria senior: as gaúchas Nayane Pereira e Juliana Dominguez, a paranaense de Cascavel Bruna Gama e as paulistas Ariela Pinto e Daniela Alvarez. As outras quatro são da categoria júnior: as gaúchas Luana Rech e Mayara Cardoso, a paulista Rita de Cássia Ferreira e a paranaense Lacy Bianqui, que é de Ribeirão Claro.
União e superação - No Pan-Americano, apenas cinco delas vão competir e, ao contrário do que se possa imaginar, as vagas não estão garantidas para as atletas senior. Uma seletiva será realizada no dia 4 de março, em Caxias do Sul, e todas estão no páreo pelas vagas.
Ainda assim, não há clima de rivalidade entre as meninas. Elas dividem o mesmo apartamento em Caxias do Sul, estão alojadas na mesma casa em Cachoeira do Espírito Santo e garantem que as discussões ou brigas são raras. Quando o assunto é a disputa entre elas pelas vagas para o Pan, todas as respostas demonstram a união do grupo. ''Independente das cinco que forem competir, o nosso caiaque será infinito. Quem não estiver dentro dele vai torcer, transmitir força. A conquista será de todas'', destaca Nayane. ''O nosso critério para definir quem vai competir é a capacidade técnica. Temos que ter responsabilidade para fazer com que as melhores estejam dentro da água, representando o País'', explica o treinador.
A superação que é exigida por qualquer esporte de alto rendimento é o que norteia o trabalho que Koslowski desenvolve com a seleção feminina. Ele explica que a mensagem transmitida para as atletas é a de superação dos próprios limites e não das adversárias, ou seja, buscar sempre o máximo. ''O que faz a diferença não é ser melhor do que os adversários, é ser melhor do que nós mesmos. O esporte tem que transmitir essa mensagem de superação para a sociedade. Por isso, nós treinamos para o ouro. Queremos superação sempre'', enfatiza Koslowski.
E a determinação do treinador é a mesma das atletas. Nenhuma das meninas reclama da rotina puxada de treinos ou da distância da família, e seguem com a disciplina necessária para quem quer chegar ao lugar mais alto do pódio em um esporte no qual décimos de segundo fazem a diferença.
Com o Pan chegando - os jogos serão de 13 a 29 de julho -, as meninas remam cada vez mais forte para que a bonita imagem dourada, que se forma com o reflexo dos caiaques e dos uniformes verde e amarelo das atletas nas águas da Represa de Xavantes, se transforme no dourado da medalha de campeãs do Pan-Americano.


