São Paulo - Enquanto o goleiro Fernando Prass era atendido por médicos em Buenos Aires, levando três pontos na cabeça depois de ser atingido por uma xícara atirada por um torcedor, o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, convocava uma entrevista coletiva na Academia de Futebol para avisar que a partir daquela quinta-feira, 7 de março, as organizadas não teriam mais nenhum tipo de regalia. E mais: Nobre lançou uma cruzada contra a violência no futebol e pediu o apoio dos rivais Corinthians, São Paulo e Santos para que cenas como as vividas pelo elenco palmeirense na Argentina não voltassem a acontecer.
Duas semanas depois, porém, nada mudou. "Eu preciso muito que os meus companheiros presidentes de outros clubes abracem essa ideia, caso contrário o Palmeiras vai ser um clube sozinho, tentando nadar contra a correnteza. A partir do momento em que uma frente de clubes, federações e órgãos públicos reme para o mesmo lado, a situação se resolve", disse Nobre à reportagem na última sexta-feira.
O presidente do Palmeiras foi procurado apenas por Luis Alvaro Ribeiro, do Santos, que lhe deu os parabéns pela vitória na eleição de 21 de janeiro e disse que o colega poderia contar com ele. A conversa, no entanto, não evoluiu e o clube alvinegro não parece muito disposto a mudar o seu relacionamento com as organizadas, como diz o presidente em exercício Odílio Rodrigues (Luis Alvaro está em licença após ser submetido a um cateterismo).
O dirigente admite que o clube doa ingressos para a torcida - não soube dizer a quantidade -, banca uma parte do aluguel dos ônibus utilizados nas caravanas para jogos fora da Vila Belmiro e ainda ajuda financeiramente a escola de samba Torcida Jovem, que desfila no carnaval santista.
"Essa é uma prática antiga. Antes, o Santos dava dinheiro. Hoje, não dá mais", diz Rodrigues, dando a entender como o modelo funciona. "Desde que o presidente Luis Alvaro assumiu, temos um bom relacionamento. Não há mau comportamento dos torcedores."
No dia seguinte à morte do torcedor boliviano Kevin Espada, em Oruro, o presidente corintiano Mario Gobbi começou a bater insistentemente na tecla de que seu clube não financia viagens ou ingressos para as organizadas. "É uma relação de respeito e diálogo, como em qualquer outro clube."
A realidade, no entanto, não é bem assim. Sob condição de anonimato, diretores da Gaviões da Fiel, principal organizada do clube, dizem que o Corinthians costuma bancar as viagens na Libertadores. Líderes de várias facções do time alvinegro estão enraizados no Parque São Jorge e fazem parte da vida do clube. Na atual diretoria, o responsável pelo departamento financeiro é Raul Corrêa da Silva. Ele fundou a Gaviões em 1969 (é sócio número 11) e também a Camisa 12 (sócio número dois).
Também são comuns reuniões entre jogadores e torcedores. Na apresentação de Alexandre Pato, no início do ano, por exemplo, a diretoria abriu as portas do CT do Parque Ecológico para que o presidente da Gaviões, Antônio Alan Souza Silva, mais conhecido como Donizete, desse as boas-vindas ao atacante e aproveitasse para também cobrar empenho do jogador.
O São Paulo está no canto oposto. Representantes da Independente, principal torcida organizada do clube, reclamam que não conseguem diálogo com a diretoria e afirmam que não recebem ingressos, nem regalias. Há poucos conselheiros ligados à organizada e eles não costumam trabalhar em prol da torcida. "Não queremos dinheiro. Queremos apenas que o clube nos reconheça", diz André Nascimento, diretor de relações públicas da torcida.
Com os rivais mais voltados para seus próprios interesses, Paulo Nobre tenta resolver os problemas do Palmeiras e a solução, segundo ele, passa por tirar as organizadas do dia a dia do Palestra Itália. "A partir do momento em que a torcida deixou de agir como torcida e passou, por causa de uma minoria, a agir como vândalos, não dá mais para ter nenhum tipo de relacionamento."
Antes do ataque da torcida aos jogadores em Buenos Aires, o Palmeiras cedia às organizadas os ingressos para jogos no exterior e, nas partidas em que o mando era do clube, as facções tinham prioridade na compra de bilhetes. Nessa cota, boa parte era de meias-entradas. "Eu vendia o que eles me pediam e dentro das torcidas você tem estudantes, professores...", explica Nobre.

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