Zurique - O futebol brasileiro vai viver nesta sexta-feira um terremoto financeiro que pode ameaçar dezenas de clubes. A pedido da Europa, a Fifa deve banir do esporte a possibilidade de que fundos, investidores e empresas tenham participação nos direitos econômicos de jogadores.
Nesta quinta, cartolas europeus do Comitê Executivo da Fifa já indicaram que tinham apoio suficiente para passar a resolução em uma votação formal nesta sexta sobre o assunto que está sendo debatido há sete anos. A CBF tentou convencer os demais dirigentes a optar por uma regulamentação e não a erradicação do sistema. Mas apenas conseguiu o apoio dos votos sul-americanos.
A decisão formal só sai nesta sexta. Mas dirigentes sul-americanos já lamentavam a situação e previam o pior. Dezenas de contratos de jogadores brasileiros poderão ser afetados e, principalmente, a capacidade de clubes de manter jogadores.
Neymar, por exemplo, apenas ficou no Santos graças aos investidores. Paulo Henrique Ganso, no São Paulo, também vive esta situação. Para a CBF, se a ideia europeia vingar, o que pode estar em jogo é a sobrevivência financeira de clubes inteiros no Brasil. Elencos como o do Corinthians, Internacional ou Botafogo estariam entre os mais afetados.
Para Pedro Fida, especialista em direito desportivo e sócio da Bichara e Motta Advogados, 80% dos elencos no Brasil atualmente contam com algum tipo de participação de investidores, o que na prática garante a sobrevivência dos clubes. "Banir essa possibilidade pode prejudicar muito o futebol brasileiro", declarou. "Esse é um instrumento de financiamento dos clubes no Brasil e times da Série A poderiam sofrer muito se a proposta da Europa vingar", disse.
Já a Uefa alerta para o risco que esse sistema representa ao futebol, que incluiria o controle de clubes por investidores em busca de lucros e a perda de poder do jogador em transações. "Há muito dinheiro envolvido e precisamos lutar contra isso", declarou Michel Platini, presidente da Uefa e principal lobista da ideia de banir o envolvimento de investidores. Para Fida, a Europa pode propor o fim do sistema porque justamente conta com a "indústria do futebol mais desenvolvida do mundo" e com outras fontes de renda.
O debate começou em 2007, quando o empresário Kia Joorabachian criou uma polêmica internacional nas transferências de Carlitos Tevez e Javier Mascherano do Corinthians ao West Ham. Desde então, o clube inglês soma multas de 27 milhões de euros e o caso levou a Uefa a colocar como um de seus objetivos a erradicação de empresas que controlem jogadores no lugar de clubes.
O debate também chegou à Fifa, que encomendou um levantamento para tentar entender a dimensão do fenômeno. Números da KPMG revelaram que mais de 1,1 mil jogadores na Europa são de propriedade hoje de grupos financeiros e não de clubes.

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