Regata reaproximou marujos civis e militares
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quinta-feira, 20 de abril de 2000
Por Julio Cruz Neto 
Santa Cruz de Cabrália, Bahia, 21 (AE) - A Regata do Descobrimento colocou lado a lado dezenas de veleiros civis e dois navios-veleiros militares, o brasileiro Cisne Branco e o português Sagres. Para os brasileiros, foi uma boa oportunidade de reapertar um laço que estava frouxo desde o início dos anos 60, quando o Brasil praticamente cedeu aos portugueses o próprio Sagres - na época, chamado de Guanabara. Desde então, a Marinha brasileira não possuía um navio-veleiro. E num ponto-de-vista mais amplo, reaproximar civis e militares, ainda distanciados pela ditadura militar de anos atrás.
"O pessoal inicialmente ficou meio tímido, porque somos da Marinha, somos militares. Mas quando entraram em contato, viram que somos pessoas normais, brasileiros como os outros, só que fardados. Como todos os civis, somos brasileiros acima de tudo, cada um tendo suas regras e comportamentos a serem cumpridos, seja na Marinha de guerra seja na empresa em que se trabalha", desabafou o capitão-de-mar-e-guerra José Sadi Cantuária, comandante do Cisne Branco, pouco antes da chegada a Santa Cruz de Cabrália.
Cantuária, 48 anos de idade e 30 de Marinha, é uma pessoa séria, que durante toda a viagem tentou manter o cumprimento das regras e a aparência do Cisne Branco, consciente da grande responsabilidade que teve em mãos. Desempenhou bem o papel militar. Mas fora do navio, à paisana, agiu como qualquer outro, sorriu, conversou sobre os mais diversos assuntos, tomou sua cervejinha, entrosou-se com os tripulantes dos outros veleiros. Também desempenhou bem o papel civil.
Cantuária classifica a participação nessa histórica travessia como "um motivo de satisfação e orgulho não só para mim como para todos". Segundo ele, "a viagem transcorreu da melhor forma possível". E o navio atendeu às expectativas: "É veloz, seguro, confortável e moderno." Claro que o comandante não citaria, de livre e espontânea vontade, os cabos que se partiram antes da hora, por falha no projeto. Mas de acordo com ele, são problemas mínimos, e a garantia existe para resolvê-los: "No Mar do Norte, o navio se portou muito bem, com ventos fortes." Cantuária se refere à primeira viagem do Cisne Branco, no início do ano, de Amsterdã, onde acabara de ser construído (com seus 76 metros, 32 velas, 18,5 km de cabos e mastros de até 46 metros de altura), para Lisboa. O mar era tão inóspito que um dos tripulantes ficou alguns dias só à base de soro, sem conseguir se mexer, de tão mareado. Perdeu vários quilos. "Era só pele e osso", lembram os companheiros.
Mas, de Lisboa a Cabrália, com o mar mais amigável, todos tiveram tempo para curtir momentos que deixaram o Comandante Cantuária emocionado, como os encontros em alto-mar (especialmente com o Sagres e o Paratii, de Amyr Klink): "Foram todos gratificantes. É muito bom ver um veleiro se aproximar, tirar fotos e depois, no porto, comentar que o navio estava bonito."
Amyr Klink - Amyr Klink chega ao final da rota do descobrimento com boas perspectivas em relação à vela no Brasil - e especialmente em Salvador. Ele ficou com essa impressão após o excelente tratamento que os veleiros receberam na cidade e a conversa que teve com o governador César Borges: "Ele é velejador e está deixando o Rio e outras cidades no chinelo." Mas o velejador ainda tem uma série de críticas a fazer. O alvo é a burocracia que os barcos enfrentam nos portos brasileiros, passando pela vigilância sanitária, pela capitania dos portos e uma série de outras formalidades, cada uma num local diferente e com um procedimento específico: "Imagina um cara que está fazendo a volta ao mundo e quer parar dois dias no Brasil. Só para essas coisas, ele perde uns quatro."
Esse é um assunto que deixa Amyr empolgado para falar: "Você não sabe a vergonha que nós passamos no exterior, quando alguém chega e fala "ah, eu estive no Brasil, tive que ir em seis lugares diferentes quando cheguei"." Segundo ele, Salvador é o melhor porto do continente para receber regatas, para onde cada vez mais velejadores vão querer ir: "Mas muitos têm medo por causa da burocracia. E a postura da capitania é arrogante. Falei isso pro governador." Ele deixou cheia de orgulho a baiana que recebeu os veleiros na chegada à Salvador quando disse que a cidade tem o melhor espelho dágua de toda a costa.
Amyr tem consciência de que é preciso respeitar a legislação vigente, mas faz um alerta: "Portugal ficou cumprindo as leis e perdeu todo o seu turismo náutico. Hoje em dia, ninguém é louco de deixar o barco lá. Deixa na Espanha." Na opinião dele, "a Marinha brasileira padece do problema de não ter tido um Sagres por muito tempo", referindo-se ao navio-escola português que participou da viagem. Há quase quarenta anos, o Brasil não possuía um navio-veleiro, ausência suprida recentemente pelo Cisne Branco: "Por isso, acho positiva a vinda do Cisne Branco." Ele visitou o navio em Salvador, acompanhado da mulher e das três filhas.
Acostumado a fazer longas viagens solitárias (sem outros tripulantes a bordo do Paratii e sem outros barcos por perto), Amyr percorreu a rota do descobrimento acompanhado de Marcos Hurodovich, Jamil Aun, Fábio Tozzi e Rimandas Krisciúnas. Gostou da idéia e encantou os marujos anônimos com sua simplicidade, apesar da fama. Conversou com todo mundo e deixou seu histórico veleiro à disposição de quem quisesse conhecer: "Valeu a pena, mas torço para que não aconteça outra dessa só daqui a 500 anos."


