Regata do Descobrimento: velejador solitário perde largada17/Mar, 20:28 Por Julio Cruz Neto Ilha da Madeira, 17 (AE) - Os barcos que disputam a Regata do Descobrimento já velejavam nas imediações das Ilhas Canárias nesta sexta-feira à noite, mas um deles ainda estava atracado em Funchal, na Ilha da Madeira. É o veleiro Fia, que tem um único tripulante. Com problemas no motor, ele teve de esperar uma peça de reposição que deveria chegar de Lisboa. E perdeu a largada da segunda perna. Mas mesmo atrasado, quer alcançar a flotilha e chegar a Porto Seguro junto com os demais no dia 22 de abril. O velejador solitário tem 36 anos, nasceu em Campinas (SP) e se chama André Homem de Mello. Algum parentesco com Zuza Homem de Mello? "Sei que tem porque meu avô disse, mas não sei exatamente qual é." André veleja "desde moleque" e sonha dar a volta ao mundo. Antes disso, resolveu participar sozinho dessa viagem comemorativa dos 500 anos do descobrimento, para chamar a atenção da mídia e tentar ganhar a simpatia de algum patrocinador. "Mas não é só por isso", garante ele: "É porque eu gosto mesmo de estar sozinho. Sempre fui introspectivo, não sou de falar muito, sou mais fechado." Mas toda essa introspecção deu espaço a uma súbita espontaneidade quando André viu que havia um repórter por perto. E foi logo avisando: "Olha, estou fazendo a Regata sozinho." Em Funchal, André falou de sua admiração pelo velejador Amyr Klink, que também participa da Regata. Contou que criava gado antes de virar 'lobo-do-mar' e que morou durante pouco mais de um ano em São Francisco (EUA), de onde veio velejando até Ilhabela - sozinho. Lá, ficou fazendo charters (aluguel do barco para turistas) até surgir a Regata. "Saí do Brasil em junho e cheguei em Lisboa no fim de setembro", lembra André. Apesar de ter sido um dos primeiros a chegar ao ponto de largada, não faltaram imprevistos em sua viagem de ida: "Fiquei sem fogão. Para esquentar a comida, colocava álcool com algodão numa latinha e punha fogo." Mas para a volta é que estava reservada a surpresa pior. André esqueceu de colocar óleo no motor, o que o fez ter de assistir à largada da segunda perna em terra firme, enquanto lamentava que ainda teria de esperar algum tempo. Com a incumbência de trazer bons fluidos, e zelar pelo motor daqui para a frente, uma pequena estátua da Nossa Senhora dos Navegantes ocupa uma das prateleiras do Fia. E ela terá essa incumbência durante muito tempo, pois André não tem planos de deixar o mar tão cedo: "Quero viver no barco, não quero mais voltar para a terra." A bordo do Fia há quatro anos, seu principal passatempo são os livros - há vários no barco, quase todos sobre navegação. Com uma nítida marca branca de sal no cabelo, o 'ermitão' da Regata do Descobrimento diz que só tomou um banho nos quatro dias da primeira perna: "Às vezes o barco está muito inclinado e eu deixo para lá." E que não é fácil arrumar uma companhia (grátis) para espantar a solidão nos portos e marinhas: "Não rola muito, não tem muitos jovens. O que mais encontro é gente que já se aposentou e mora no barco. Não que eu seja tão jovem, mas também não sou velho." Velejando sem problemas rumo a Cabo Verde, Luiz Alberto Ballarin, comandante do Corumii, disse ontem que encontrou uma lula em seu convés. Ballarin desistiu de competir na regata devido à decisão de lacrar os motores: "Não é esse o espírito da prova."

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