Tente voltar 500 anos no tempo e imaginar a seguinte situação: frota de Cabral arrastando-se a uma velocidade de um nó (1,85 km/h) durante 10 dias nos Doldrums, região de calmarias nas imediações da linha de Equador. No ar escaldante, as velas pendiam, frouxas. A água acabava e os tripulantes morriam de sede, correndo risco de vida mesmo.
Uma das naus, comandada por Vasco de Ataíde, já havia sumido, perto de Cabo Verde, com 150 tripulantes. Nas 12 embarcações que ainda tentavam chegar ao Brasil (e chegaram), estavam divididos 1350 homens, que já estavam havia 20 dias vivendo longe de suas casas e suas famílias, na imundície daquelas naus e caravelas lotadas. A melhor, e talvez única, solução para manter o astral num nível suportável seria um jogo, um carteado, algo do gênero. Mas quase todas as atividades de lazer eram proibidas, como informa Eduardo Bueno no livro "A Viagem do Descobrimento".
"Ainda assim", conta o escritor, "sempre que possível os marujos dedicavam-se ao carteado". Mas se os padres pegassem em flagrante, as cartas iam parar na água. Só na nau capitânia, de Cabral, havia oito frades franciscanos. Os romances de cavalaria, tidos como "armadilhas do demônio que causavam grandes danos à alma", como definiu Paulo Miceli em "O Ponto Onde Estamos", também eram vetados.
Já no Cisne Branco, existe uma caixa com 100 livros à disposição dos tripulantes - entre eles, é claro, Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. Quem administra a mini-biblioteca é o capelão João Batista - nas Forças Armadas, fala-se capelão ao invés de padre. Mas esse capelão é muito diferente daqueles de antigamente. Além de celebrar missa aos domingos, dar suporte psicológico aos tripulantes e ajudar nas manobras de vela, ele toca violão, canta e conta piada.
Jogar baralho, mesmo depois de cinco séculos, continua proibido. Mas não é culpa de João Batista, que não tem nada contra jogos e até participou do torneio de dominó entre oficiais e jornalistas - em parceria com o Comandante Cantuária, perdeu na primeira rodada. Além dos livros e desse torneio, que ainda está em andamento, os tripulantes do Cisne Branco também podem jogar xadrez e gamão. Na sala da guarnição, há um aparelho de som com CD. E, diariamente, um filme é exibido no circuito interno de vídeo, às 18h30 e às 21h.
Os outros participantes da viagem também tem seus passatempos a bordo dos veleiros. Amyr Klink, por exemplo, instalou no Paratii um aparelho de som de carro. O Papa Léguas também tem estrutura, mas faltou o mais fácil, como conta Ana Rita Candaten: "Temos vídeo, mas só duas fitas, "A Honra do Poderoso Prizzi" e "Os Imorais", que assistimos várias vezes. O aparellho de CDs quebrou e só tínhamos uma fita do Roberto Carlos. E o pessoal que toca violão, só sabe cinco músicas. Dá um pouco de tédio." Quase todos os veleiros estão em Mindelo, de onde partem para a terceira perna no início da próxima semana.Por Julio Cruz Neto Mindelo, Cabo Verde, 24 (AE) - A viagem do Descobrimento não é nada curta. Entre Lisboa e Porto Seguro, são 45 dias, sendo um mês velejando e duas semanas em terra firme - Funchal (Ilha da Madeira), Mindelo (Cabo Verde) e Salvador (BA). Mas ao contrário do que ocorria na esquadra de Pedro álvares Cabral, os novos descobridores do Brasil têm algumas opções de lazer para ajudar o ponteiro do relógio a girar mais rápido - especialmente no Cisne Branco, navio-veleiro da Marinha que leva a bordo a reportagem do JT.

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